OBRA - TEXTOS LITERÁRIOS
Um novo artista da fome (2016)

 

Um novo artista da fome (2016)

EVANDO NASCIMENTO *
ilustrações THEO SZCZEPANSKI

Texto pulicado na edição #193 do Jornal Rascunho maio 2016 / Dom Casmurro.

Estêvão resolveu um dia se tornar o maior performista do mundo. Estava cansado de ser pintor, carreira que abraçara com paixão havia cinco anos, mas que não trouxera os resultados esperados. Todavia, em vez de dinheiro, desejava celebridade, prestígio, glória. Pois de riqueza não carecia, porém de consagração sim: nasceu numa família carioca abastada, residente há tempos num tríplex da Avenida Rui Barbosa, fronteira entre a Praia de Botafogo e a do Flamengo, vista cinematográfica para o Aterro e a Baía. Vivenciou o tédio que uma criança burguesa sofre, cheia de mimos, com babás e serviçais em abundância, todos negros e mulatos, tal como se vê nas telenovelas exportadas mundo afora ou nessas gravuras retratando o Rio do século XIX — a família branca sendo cortejada por seus nem sempre bem tratados escravos. Ele conhecia perfeitamente tais imagens, sobretudo aquela de Debret, em que uma senhora luzidia, de opulenta estirpe lusitana, dá de comer a um garotinho, futuro servo, como se cãozinho fora.

Não ficava abalado com essa cena tipicamente brasílica, mas se comovia com a beleza plástica das representações do genial francês. Pois muito cedo Estêvão decidiu ser pintor, para grande desgosto da família. Por se tratar do primogênito, o pai o imaginara como o futuro presidente da indústria de tecidos, assumindo o posto que antes fora do bisavô, do avô, e dele mesmo, o pai, numa nobre sucessão patrilinear. Para piorar as coisas, era o único filho homem, tendo apenas uma irmã. De nada adiantou a pressão, Estêvão bateu pé, dizendo que seria pintor ou então abandonaria o ninho antes mesmo que toda a plumagem tivesse se formado em seu frágil corpo, habilitando-o ao voo. A natureza tem caprichos assim, era relativamente franzino, a despeito da corpulência de todos os patriarcas que o precederam.

Devido à determinação do rapaz, a família teve que ceder e começou a preparar a filha para o trono, pois felizmente esta desde cedo demonstrou ser dotada da disposição para manter e gerir o patrimônio familiar. Alguns desconfiavam que ela nasceu menina-homem, coisa que nunca foi provada, apesar das roupas viris que desde criança gostava de vestir. Tinham os dois irmãos apenas um ano de diferença, mas ninguém poderia imaginar indivíduos mais desiguais — uma, a figura da força em miniatura, o outro, um protótipo de homem que, suspeitavam, nunca daria certo. A ver.

Diz certa lenda inglesa da Idade Média, de inspiração celta, que o destino é inexorável: o indivíduo se tornará, de um modo ou de outro, aquilo que já é. Mesmo o fracasso está previsto no plano original, por causa da semente que mais tarde vira mulher, homem, trans, cavalo, orquídea, samambaia ou vírus. Do fado, afirmam os fatalistas de todos os tempos, ninguém escapa. Estêvão decidiu ser artista, a qualquer preço, intuindo no fundo que fora essa a sorte a ele reservada. Desde adolescente frequentou museus do Rio e do mundo, visto que os pais costumavam passar as férias com os filhos na Europa, raramente nos Estados Unidos, que consideravam um tanto vulgar. Além disso, a biblioteca paterna contava com inúmeros livros de arte; ele amava em particular dois grossos tomos, que vieram como suplemento da enciclopédia Larousse, nos quais se podia apreciar as obras-primas consagradas pelo Ocidente, desde a arte rupestre até a modernidade de Picasso, quando nada mais podia ser feito. Todavia, Estêvão tomou para si a tarefa improvável de levar adiante o legado do mestre catalão, quem sabe superando-o. Afinal, trazia em si o gênio da família, que exigia dele ser o melhor, independentemente da carreira que escolhesse.

Teve excelentes professores, primeiro em casa, regiamente pagos como preceptores do futuro artista; depois se inscreveu na Escola de Belas Artes, onde brilhou como pretenso pintor, todos lá antevendo uma carreira bem-sucedida. Mas Estêvão não contava com o fato de que, ao longo dos anos 90, a pintura entraria em decadência: no mundo todo, com poucas exceções ninguém mais via interesse no ato de pintar por pintar. O valor em arte se deslocara para novidades — algumas nem tão novas — como a vídeo-arte, a instalação, a performance e, quem diria, o grafite.

Passados cinco anos depois de obter o diploma sonhado, Estêvão continuava um artista semiconsagrado. Semi porque todos que conheciam seu trabalho louvavam-no como no mínimo original, mas o mercado não conseguia se interessar por uma arte que já nascera velha, por assim dizer, tão antiga quanto a humanidade. Careciam todos agora, galeristas, curadores, mídia, público em geral, da verdadeira novidade, aquela que superasse o último escândalo, levando a engrenagem adiante. Foi aí que Estêvão resolveu colaborar com o destino — se todos os sinais indicavam que seria famoso, por que então não dar uma mãozinha, empurrando a roda da fortuna para que girasse mais rápido? Decidiu fazer uma performance como nunca antes, em lugar algum. Planejou tornar-se mendigo e depois relatar em livro de ouro a experiência da miséria que jamais conhecera na vida. O choque público seria enorme, em especial na alta burguesia, de que legitimamente fazia parte.

Ao saber da decisão, o pai ameaçou deserdá-lo, onde já se viu um Albuquerque. Tampouco adiantou o choro compulsivo da mãe, a repulsa da irmã, que sempre o julgara o idiota da família. Estêvão pegou suas roupas mais usadas, não eram muitas, mas o novo papel social (e artístico, não esqueçamos) não exigia grandes recursos, ao contrário, quanto mais despojado se mostrasse, mais convincente seria. Por assim dizer, no sétimo dia de preparo, afinal desconhecia inteiramente a pobreza e muito mais a indigência, era preciso ensaiar, no sétimo dia caiu em desgraça de cara no mundo. Converteu-se no primeiro desafortunado voluntário da Terra, rindo à toa por estar finalmente sozinho no palco da existência, sem o escudo ou a muleta familiar. Romântico que era, preferiu fazer o maltrapilho solitário, aquele que vive em sua esfera, grunhe palavras, confundindo-se muitas vezes com o louco.

Como saiu sem um tostão de casa, esquecendo intencionalmente sobre o criado-mudo a bela quantia que a mãe protetora lhe reservara para qualquer aperto, necessitou achar comida quando sentiu fome. E aí, como fazer. Deixou com prazer a dignidade de lado e tentou pedir esmola, mas, apesar da magreza, seu tipo não convencia, parecia mais um daqueles malandros que as pessoas espertas evitam. Deambulou por dois dias sem sossego, usando as reservas de energia. Dormia e sonhava com frangos assados, peixes magníficos, massas autenticamente italianas e sobremesas que só a negra Danuza fazia; acordava com o gosto na boca e o ventre vazio, era duríssima a vida mendiga.

A vontade de comer aumentando, criou coragem e abriu sua primeira lata de lixo. Viu então que era de fato um artista, somente um bem verdadeiro suportaria aquilo com desprendimento e elegância. Deixaria tudo mais tarde consignado no livro-memória de sua Experiência número 1, como já a denominava. Estêvão estava certo de que naquele momento inaugurava uma nova obra, algo que humano algum jamais tentara: passar necessidade sem necessidade, sentir deliberadamente na pele a vergasta da pobreza, sendo milionário de berço. No futuro, meus colegas de ofício invejarão a audácia: por que não pensaram nisso antes… talvez porque não tenham como eu dinheiro para esbanjar, vivendo às avessas como mendigo. Mas quando sentiu o cheiro de podre, que jamais chegara a suas narinas com aquela intensidade, o estômago se revolveu por completo. O corpo debilitado era todo sensações, percorria-o uma náusea inusitada, um torpor que o fazia ver o contorno dos objetos fora de foco, como quem toma um ácido poderoso e sente os efeitos muito além do esperado. Tremia, tremia, tremia. Súbito se lembrou de um poema de Manuel Bandeira, lido numa coletânea que pertencia ao pai, poema este que falava de um bicho catando detritos para comer e do horror de descobrir que o tal bicho era um homem… Fechou a lixeira com asco e passou mais um dia esfomeado.

Até então fome era para ele substantivo abstrato, palavra sem correspondência na realidade, pois toda vez que a sensação desagradável advinha era logo saciada. Ninguém nunca lhe explicou como era a existência de quem não tem o que comer, nenhum professor de história ou de ciências sociais ou mesmo de exatas lhe dera a fórmula da vontade incontrolável de devorar sem ter o quê. Aquilo era o oco mais oco que podia imaginar, o vazio absoluto, sem nenhuma garantia de retorno ao bom sentimento de gravidade, que nos salva a todos da demência. O desespero chegou a tal ponto que pensou em abater e se refestelar com um daqueles corpos que pululavam pelo Centro, mas prevaleceu o amor atávico por sua espécie. Além do mais, desde a remota época da colonização, o cristianismo condenava inapelavelmente a antropofagia, a despeito de o próprio Cristo ter oferecido seu sangue e sua carne aos discípulos.

No auge do sofrimento, sorriu beato, enfim alcançava a felicidade de ser outro. Eis a prova definitiva do artista, alguém capaz de levar o dom inato ao extremo, com o risco da própria vida, tal como muitos ousaram antes dele, porém nenhum com tanta audácia. Passou uma tarde inteira se deliciando com aquela alegria de poder viver de sua arte, embora ao avesso do que imaginara. Uma epifania, inesperada como todas. Isso lhe deu forças para abrir outra lata de lixo e fazer a primeira refeição desde que saíra de casa. Por sorte, um restaurante da Lapa, seu bairro preferido para flanar, dândi do infortúnio que se tornara, deitou fora em sacos plásticos os restos do almoço, e ele pôde às cinco da tarde, esganiçado, se deliciar com algo mais ou menos fresco, embora misturado a sujidades. Pouco importava, não era mais o garoto mimado que toda vez que derramava um líquido no tapete ou no sofá gritava o nome da empregada — nunca tinha pegado um pano de limpeza, jamais suas mãos delicadas tinham tocado o nojo do lodo. Foi o melhor repasto de sua vida, porque temperado com o molho da fome concreta. Agora sim, era um homem acabado, homem e artista, no duro. Demasiado humano.A beleza da miséria não se compara nem de longe à miséria da beleza, dizia de si para consigo, como um mantra. Ou:Mais vale um artista pobre do que um pobre artista. Repetia tais frases nada óbvias para que ganhassem algum significado.

Porém, nos dias seguintes não teve a mesma sorte, nem sempre sobrava comida nos restaurantes e, como já estava habituado à penúria, passou a catar de lixeira em lixeira um pedaço de sanduíche aqui, um gole de Coca ali, uma sobra de salada acolá, assim por diante, até que o monstro na barriga deixasse de incomodá-lo. Mas o monstro tinha sete vidas e no dia seguinte voltava ainda mais forte, pedindo mais nutrientes, ao ponto da alucinação.

Foi aí que Estêvão descobriu porque os moradores de rua dormem tanto, um modo de poupar o pouco vigor de que dispõem. Então começou a ficar quase o dia inteiro deitado no leito improvisado com jornais, só acordando para pedir dinheiro ou catar alimento. Felizmente, para sua surpresa, o sistema imunológico se adaptou à nova dieta: nenhuma febre, gripe ou diarreia miraculosamente o acossou. Estou no caminho certo, refletiu aliviado, nenhum mal me atingirá. Viver de restos, quem diria. Jejuar correspondia a um tipo de ascese, uma questão de definir o cardápio adequado, mas quase nunca no caso por livre-opção.

Quando via algum conhecido na rua, escondia o rosto, apesar do orgulho que sentia pela coragem de assumir aquela real condição. Desde o início, determinou que investiria um ano naquele projeto e que de preferência depois não voltaria ao lar, vivendo com seus próprios recursos. Encontraria decerto um modo de sair, por esforço próprio, da privação aguda para o conforto da classe média, tal como seu pai dizia que seu bisavô português conquistara a América, mesmo sendo imigrante pobre. Já Estêvão se transformara em um migrante voluntariamente depauperado, convertido à classe nula em nome da arte, o fabuloso pobre menino rico. A única coisa que o chocava era a indiferença dos transeuntes, ele fazia agora parte de uma população invisível nas grandes cidades do planeta, o que também lhe dava um sentido de missão.

Era emocionante observar o mundo dessa perspectiva, de baixo para cima, e não de cima para baixo como fora acostumado. As pessoas, os veículos e os prédios pareciam muito mais altos, mesmo um rato ou uma barata assomavam ameaçadores, pré-históricos, na calçada onde Estêvão repousava. O ruído da cidade fazia ver as coisas e as cores ainda mais desproporcionais, por um efeito ainda não estudado de estereofonia visual. Sua sensibilidade artística estava sendo afinada com o potente esmeril urbano, dali surgiriam inúmeros outros planos de intervenção estética. Quem sabe, por exemplo, passar alguns meses numa prisão, por um pretexto qualquer, como tentativa de assaltar banco ou sequestrar alguém de minha antiga classe, devaneava entre um sono e outro. Depois escreveria livros como Diário do Assaltante ou Manual de Sequestro para Amadores. Oficialmente, poderia também pleitear uma residência como resistente político na China, havia muitas instituições de fomento para isso; lá encontraria o performista-engajado mundialmente célebre, um modelo de bravura.

Durante esse tempo, ligou apenas uma vez para a mãe, dizendo que estava bem. A coitada vivia a poder de remédios, pois uma pessoa maldosa lhe contara que vira seu filho mendigando, e a pobre senhora quase morreu numa crise hipertensa. Não sentia mais nada, os medicamentos não deixavam, habitava uma zona fora do tempo, a voz do filho lhe pareceu de outro planeta, quem sabe de outra galáxia. Que fizera para merecer isso.

Depois de alguns meses exposto a sol, chuva, poeira, violência da polícia e de bandidos, quase atropelamento etc., Estêvão aceitou finalmente a amizade de um colega de desdita. Gildo parecia meramente interessado no afeto do novo camarada, mas tinha outras intenções. Iniciou Estêvão no consumo do crack, este relutou, porém acabou convencido de que a droga era um atenuante da fome, abrindo as portas para outras percepções. Viciou-se rapidamente e logo precisou traficar para sustentar o luxo de viver drogado, tal como o próprio Gildo. Sobreviveu daquele modo por meses, feliz por ter encontrado um modo único, inimitável, de se tornar um exemplar excepcional da humanidade.

Até que se desentendeu com um dos subchefes do tráfico, ou antes, o mandante ficou contrariado por Estêvão ter consumido a droga para venda sem lhe dar lucro. E assim o imaginativo artista amanheceu queimado na Praça Tiradentes, matéria de capa do jornal Extra. Era enfim, por vias tortas, a ambicionada fama, que poderia ser acompanhada por seus colegas de mendicância, nas manchetes dos próximos dias. Ainda o levaram para o Hospital Souza Aguiar, mas não resistiu às queimaduras de primeiro e segundo grau.

Os Albuquerque jamais souberam que fim levou o herdeiro, enterrado como indigente, sem honrar a dinastia do nome. Em algum lugar do planeta dever-se-ia erguer um monumento ao artista anônimo, aquele que morreu no auge de seu experimento, em meio ao lixo, sem atingir o luxo do renome. O que o mísero Estêvão ignorava é que sua performance nada tinha de original, pois já tinha sido realizada nos anos 70 por um artista tcheco, Ludvik Dussék, que passara, em plena ditadura, um mês voluntariamente como pedinte, exilado da vida dita normal, nas ruas hibernais de Praga. Tal como nosso herói, sua pretensão era vaguear também por um ano, mas quando o governo comunista descobriu a façanha, interpretada como protesto político (Não existem desvalidos no comunismo, diziam, que veio para acabar com a miséria do globo.), encarcerou para sempre esse outro artista da fome, que obteve pleno êxito em sua Experiência batizada por ele de número 0, definhando numa cela até a morte. Nem o brasileiro, nem o tcheco entrou infelizmente para o Guia da Arte Moderna e Contemporânea. Daí a urgência de se fazer uma placa que seja em homenagem aos jovens talentos sacrificados.


* EVANDO NASCIMENTO É escritor, ensaísta e professor universitário. Autor, entre outros, de Cantos do mundo (Record) e Cantos profanos (Biblioteca Azul). Este relato integra o livro inédito A desordem das inscrições. Vive no Rio de Janeiro (RJ).

 

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Olhares Cruzados (2016)

 

Leia 'Olhares Cruzados', conto inédito de Evando Nascimento

EVANDO NASCIMENTO *
ilustração ALEX CERVENY **

Ilustríssima, Folha de S. Paulo
13/03/2016 02h08

Abro a janela do quarto, a luz penetra em fachos com violência, estão me vendo. Vou tomar o café da manhã, sei que estão vendo. Sigo para o banheiro, sento no vaso, lavo as mãos, escovo os dentes, tomo um banho primeiro morno, depois frio, ligo, desligo o aquecedor, estão vendo. Ponho a cueca, as calças, a meia, a camisa, o cinto, os sapatos, a gravata, o terno, faço uma ligação para Mirtes, estão vendo e ouvindo. Desço, pego a moto, cruzo rapidamente lentas avenidas, até chegar ao prédio onde trabalho, entro, subo no elevador, mais do que nunca estão vendo, até pedem que sorria. Sorrio e aceno.

Passo o dia inteiro assinando papéis, analisando orçamentos, falando ao celular, tendo reuniões presenciais e em videoconferência, vão vendo e anotando. No almoço, uma pequena pausa nas tarefas, vou com os colegas ao restaurante da esquina, peço o de sempre, depois volto, trabalho, trabalho, trabalho. Já no final da tarde, saio, subo novamente na moto, atravesso parques, tento escapar dos engarrafamentos, seguem me vendo.

Chego a meu prédio, pego a correspondência, troco palavras com o porteiro, não tem jeito: estão vendo. Subo no elevador, abro a porta do apartamento, acendo a luz, observo a sala espaçosa, a estante com livros, o janelão que dá para os flamboyants em flor, a esta hora na escuridão lá fora, verifico se as coisas continuam no lugar, em cada canto, também estão vendo. Tomo o banho da noite, Mirtes liga dizendo que vai passar em casa, preparo um simples espaguete com molho de tomate e manjericão, que ela tanto ama, abro a garrafa de um delicioso borgonha, estão nos vendo.

Vamos para a cama, longos minutos de carinho e tesão, suores, doces palavrões, tapinhas, mordidas no pescoço, na orelha, e o gozo arrebatador, o dela um pouco mais longo, estão vendo e registrando. Meu temor seria se... Ela vai embora, tem muitas atividades na manhã seguinte, dirige uma escola, prefere dormir em casa para poder preparar tudo, beijo-a, volto para a cama, durmo um sono intranquilo –apesar do escuro, estão vendo a noite toda com dispositivo de captação infravermelha.

Nada lhes escapa em meu dia a dia, tudo sob controle, não deixam de ver e ouvir jamais, cada detalhe, cada suspiro. Por enquanto, o sonho é a única coisa que não conseguem observar diretamente, ainda. Preciso tirar férias, não aproveitei as do ano passado, a empresa me exige demais. Já de manhãzinha, logo ao despertar, leio algumas mensagens na tela, respondo, estão com certeza vendo e lendo.

No final de semana, vou com o filho ao Jardim Botânico, onde raízes brotam, frutos apodrecem, pássaros acasalam, orquídeas iluminam as manhãs numa rajada de cores, o vento esparge perfumes; a despeito do cenário bem natural, não há dúvida, estão nos vendo e transcrevendo tudo. Ele é um pré-adolescente, sua mãe e eu nos separamos faz dois anos, de forma amical e dura, a fim de poupá-lo de nossa indiferença dolorida, estavam nos vendo. Explico-lhe tudo o que sei sobre árvores, os nomes, a época de floração, os possíveis frutos, repasso o que aprendi com meu pai. Deveria ter me tornado biólogo, especialista em botânica, amo as plantas –estão vendo–, mas optei por ganhar mais dinheiro como executivo, me formei em economia.

Fabinho faz muitas perguntas, de tudo quer saber, tem uma visão colorida e múltipla do mundo, talvez se torne artista, no mínimo arquiteto, paisagista, gosta de rabiscar figuras, sobretudo vegetais, estão vendo, sim. Não tento influenciá-lo, apenas ponho o que sei, vi, ambicionei a sua disposição. Meu guri é como uma página ainda não escrita, tudo absorve e transforma de imediato. Estão vendo mais uma vez, então aproveitamos para tirar algumas fotos e fazer microvídeos com a câmera.

Vivo uma vida pacata e insatisfatória, como todas talvez, não imagino ninguém plenamente contente com suas pequenas e médias realizações. Acabei não indo muito longe, igual ao comum da gente: várias frustrações, alguns contentamentos, em geral bastante tédio, e estão sempre nos vendo. Já pensei em desistir da vida, não por sofrimento, mas, digamos, por comodidade, daria no mesmo, apenas encurtaria a duração. Porém estavam me vendo e, sem que pedisse, vieram em meu desesperado socorro, um contratempo, não voltei a tentar (disseram que minha existência é demasiado preciosa). Em qualquer situação, lugar, instante, dimensão, estão vendo incessantemente. Sei que planejam instalar um pequeno aparelho em meu cérebro e no de outros para verificar nossos pensamentos se produzindo, têm tecnologia para isso, é questão de prazo e investimento, já estão vendo.

Cheguei a inventar um código hipercifrado para comunicação exclusiva com os íntimos, estavam vendo e decifraram rapidamente. Encontrei, todavia, provisoriamente uma solução: passei a fazer desenhos intrincados, a mais rudimentar das tecnologias, e ainda estão vendo, porém com dificuldade. Ando com um lápis e um bloco de tamanho médio por toda parte, esboço um pássaro, uma palmeira, um par de botas velhas, uma prancha de surfe –meu esporte favorito, quando jovem–, um veículo antiquado, uma cópia de Da Vinci, misturo tudo, invento híbridos, estão vendo, mas não entendem. Procuro assim redesenhar minha vida, embora saiba que estão vendo e revendo, analisando e processando, até chegar a uma solução. Desenhei muito quando adolescente e agora descobri esse modo de despistá-los, praticando uma arte elementar, a única talvez capaz de frustrar suas expectativas. Pois, afinal, para que serve o desenho pelo desenho num mundo hipertecnológico?

Ajudou bastante o fato de ter abandonado toda a parafernália no dia a dia de forma metódica, só uso o indispensável no escritório; em casa, apenas silêncio, concentração, música, leitura, conversa, amor e desenho. Continuam vendo e se espantando por um homem de finanças perder tempo com essas formas toscas. Somente o design inteligente lhes interessa, ou então o projeto para construir a derradeira ultramegatorre na Ásia. Enquanto isso, prefiro traçar um boi, uma pulga, uma folha de relva, uma curva, sobrepondo formas, letras, palavras, sinais, cores –estão vendo?

* EVANDO NASCIMENTO, 55, é escritor e ensaísta, autor de "Cantos Profanos" (Globo) e de "Derrida e a Literatura" (É Realizações).

** ALEX CERVENY, 52, é artista plástico.

 

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De Cantos Profanos (contos) - BABEL REVISITADA

 

BABEL REVISITADA

Evando Nascimento

1. Inventaram então de edificar a Torre infinita. Desconheço de quem foi a ideia, se inspirada por deus, homem ou outro qualquer vivente. Só sei que desafiaria terras, mares & céus confundidos. Demasiado alta, indo das fundações ao além do firmamento, furaria o teto das galáxias e tocaria o que não há (o princípio do Nada, de onde tudo proveio). Conforme o plano do arquiteto primordial, seria cilíndrica, inteiriça, porém de uma beleza quase insustentável, no limite do que não se pode conceber. Infraleve.

2. Decretaram que não precisaria de designação, porque nomes são efêmeros como seus autores e proprietários. Bem assentada na cidade, nossa construção seria eterna, sereníssima, imóvel, como nada mais – uma fortaleza contra ventos, tormentas, maremotos, explosões solares, bombardeios quânticos. Num só qualificativo, inabalável. Eia!, exultamos e principiamos a tarefa. E assim quisemos e assim foi feito.

3. Todavia, por um erro de cálculo, no início éramos apenas três vezes três, entre engenheiro, mestre de obra e operários, de ambos os sexos, embora predominasse – como é frequente nesse tipo de empreitada – o elemento viril. Disseram mais tarde os acusadores, de má-fé, que queríamos erguer um monumento à vaidade, para nos fazermos um nome; ora, como declarei há pouco, desprezamos denominações, renomes, nomeadas e demais coisas vãs.

4. A meta era outra: o colosso dispensaria finalmente qualquer divindade, boa ou má, deus, anjo, santo, demônio. Era prodígio exclusivamente nosso, resultado dos trabalhos & dias. Quem não compreendeu isso veio a ser dispensado antes da data-limite, segundo o planejado. Queríamos atingir o que está para além do pensamento e não tem tradução, o ingente portento.

5. O betume serviu de argamassa, a pedra, de tijolo, a cal, de tinta, a prata, de adorno. E assim fomos laborando através dos tempos em prol do Tempo, que se tornaria um dia o único Espaço, por meio do qual chegaríamos aos confins. Mas o problema foi esse, como a obra não tinha hora de terminar, acabamos findando antes do prazo e precisamos nos reproduzir para garantir a continuidade do Projeto. Com o passar dos anos, nos multiplicamos numa espiral de noventa e nove, depois novecentos, novecentos e noventa, em seguida mil, mil e um, mil e cem, um milhão, até perdermos a conta. Somos essencialmente discrepantes.

6. Pois então, ao fim, ao cabo, éramos tão numerosos que a parte da torre-mastro já construída não suportou o peso de tanto povo, com tantos hábitos diferentes, tantas línguas, e desabou. A cidade ruiu junto. Algumas testemunhas falaram de catástrofe natural, outras atribuíram os escombros ao Acaso, outras, por fim, proclamaram a divina intervenção. Um pequeno punhado de sábios, entretanto, garantiu que tudo não passou de confusão humana, descuido, pressa ou má inclinação, e que, desde a noite das eras, nada mais adveio de animado ao mundo além dos bichos, plantas e micróbios. Vige em torno o vazio. Se me é dado emitir opinião, penso que, com efeito, afora a própria natureza, quem sempre ergue ou demole são os homens, figurando as mulheres até recentemente como coadjuvantes.

7. Esta última é a versão mais crível de todas, embora haja crédulos e mistificadores que continuam reafirmando a vingança de um todo-poderoso Deus contra nossa desmedida ambição. Se isso é fato, e muitos juram que é, o Tal sucumbiu junto com o edifício e os séculos. (Ademais, quem propala a descarga de um raio ignora que, de acordo com estudos, coriscos são fenômenos eletromagnéticos na verdade ascendentes, e só por ilusão de ótica imaginamos o contrário; mas, concedo, a matéria é controversa e há muitas pesquisas em curso.) Já os heréticos radicais proferem que a autêntica maravilha são os afetos e as paixões, capazes de configurar universos. Para eles, as verdadeiras torres são internas, as externas são todas factícias.

8. Logo após a derrocada, nos dispersamos sobre a face do minúsculo globo e voltamos a construir, dessa vez, porém, tendas isoladas, choupanas, abrigos, chalés, modestas residências, sobrados de no máximo dois, três andares. Durante milênios, não sobreveio a tentação funesta, e, para os mais talentosos, a restrição foi liberdade. É mais fácil criar a partir do que tem limite do que do infindo – um enorme vão:

9. Agora, depois de incontáveis gerações, voltaram rumores, do Oriente ao Ocidente, sobre gigantescas torres, algumas até geminadas, e já há os que se preparam para a queda, antes mesmo da conclusão. Puro mito.

(11.IX.11)

 

Em Cantos profanos. São Paulo: Globo (Biblioteca Azul), 2014, p. 21-23.

 

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De Cantos do mundo (contos) - VIDA DE AQUÁRIO

 

VIDA DE AQUÁRIO

 

 Livremente inspirado
em Henri Matisse.


Não tenho braços nem pernas, somente corpo bojudo e grande boca, com a qual todos aqui de certo modo também respiram. A pele é de cristal levemente azulado, por vezes cinza, a depender da luz incidente. Em dias de muita claridade, quase me confundo com a brancura das cortinas ou o verde do jardim, vidraça sobre vidraça. Posso ser visto como olho reversivo, permitindo contemplar o conteúdo e igualmente mirar o entorno. Em algum momento da jornada, um residente da casa sempre perscruta. São muito curiosos, os homens (estranhos esses meus familiares, vivem da mesma forma encerrados, porém em microespaços cúbicos).

O mais velho pode ficar horas no sofá, admirando o que se passa cá dentro, absorto. Tenho alergia à areia de fundo e a algumas plantas, mas não posso reclamar, ninguém entenderia. Amo a renovação das águas, quando a antiga começa a turvar, pela movimentação dos habitantes e pelo detrito. Durante muito tempo, foram quatro casais com filhotes, de espécies e tamanhos diferentes, dando colorido particular a minha íntima vida, devassada pelo olhar alheio.

Certo dia, colocaram sem querer um que era de briga, foi longa a rinha, não sobrou nenhum dos outros. As crianças choraram demais, os adultos tiveram que me esvaziar por inteiro. Fiquei sem utilidade durante meses, esquecido em armário empoeirado. Até que um dos meninos fez aniversário, deram-lhe um casal dourado e outro vermelho – ganhei segunda existência.

Tenho pavor de gatos, querem sempre me derrubar, para devorar as entranhas, embriões vagando no útero. Felizmente o último que havia morreu faz tempos, de desconhecida enfermidade; antes disso, tentou de todas as maneiras pilhar. Me vinguei com seu fim, agora descanso da vida imóvel que levo, em sono desperto, estado de vivo-morto. O grande temor do cristal é um dia partir de vez, não bastassem os sulcos, veios e rachaduras que congenitamente traz. Sua maior qualidade é também seu mais frágil pendor, qual seja, a delicadeza, sempre a ponto de, eterna iminência. Ninguém nos compreende adequadamente, o que redobra a suscetibilidade. 

Outro dia, retiraram todos e colocaram um noviço, invenção translúcida de gênio louco: pode se ver todos os órgãos e suas pulsações, através das invisíveis escamas, quase um irmão. Dizem que é experimento do tio cientista, servirá para pesquisas com moléstias graves. Espero que não transmita nenhuma, careço de águas saudáveis.

Nunca me deram nome, desconfio por quê. Observo tudo em volta, trago comigo a memória do lar, as disputas e as reconciliações, as incertezas e os êxitos, as frustrações, os desejos, a normalidade em suma (aprendo muito com esses dessemelhantes, entre paredes). O reduzido cômodo fornece os limites do universo, fina casca de noz, aprisionado que estou na vítrea condição. Se tivesse um nome, poderia adquirir linguagem e quem sabe vir a falar, como nas fábulas que tantas vezes ouvi. Seria o começo da liberdade, mas para eles o risco é alto, sou transparente arquivo.

Sonho com grandes viagens evasões sem companhia de família num percurso todo meu pelas vias aquosas da terra... estudei catálogos marítimos úmidos roteiros mapas balneários oceanos deltas bacias enseadas baías cascatas uades veredas doces e salgadas para beber de muitas águas... (Sou, ao mesmo tempo, o carcereiro e o prisioneiro infelizmente.) Escapar quase uma arte do outro lado da líquida tela sei exatamente o que quero – o ímpeto vão o mundo largo:


Onde esconderam a chave dos mares?  

(19.IV.09)

Em Cantos do mundo (contos). Rio de Janeiro: Record, 2011, p. 19-23.

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De retrato desnatural (diários – 2004 a 2007) - epígrafe (infante)

 

epígrafe
(infante)

uma vez
o menino não falava
fez-se aniverbal
pois de palavras
carece e unhas
crescem pelos cabelos
a bordo da grande rede
singelo manipulava
o lápis de cor: um sol
uma árvore uma casa
tudo aprende tudo
quer saber de cor
de coração

toca acordeão
sai de beco em beco
adentra a pobreza
da cidadezinha o cerne o oco
aos oito anos à grande cidade
metáfora do mundo
viaja com a família
e não quer voltar:
medo sonho
vontade

tempos depois
tão e tonto investe
o corpo transveste
de comovida beleza;
para trás os barracos
as vielas o limbo
agora noutro espaço
a favela o morro
o zinco

a tela é micro
o mundo é  macro
entre uma e outro
a desmedida
de vida & arte
um marco

(09.XI.04)

Em Retrato desnatural. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 13-14.

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De retrato desnatural (diários – 2004 a 2007) - arquivo (confidencial)

 

arquivo
(confidencial)

corpo fichário de deleites
suores dissabores humores

alma fichário de centopéia
andorinha estrelas-do-mar

o corpo é prático ou útil
a alma perversa e indócil

vivo em lépido trânsito
passando da alma que voa
ao corpo que corre

                                 alado

(11.XI.04)

Em Retrato desnatural. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 15.

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De retrato desnatural (diários – 2004 a 2007) - zôo ilógico (lygia clark)

 

zôo ilógico
(lygia clark)

amo os bichos
as garras
herméticas
ciberpoéticas
metálikas
desdobráveis
origâmicas
não-fatais

(03.III.05)

Em Retrato desnatural. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 27.

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De retrato desnatural (diários – 2004 a 2007) - pensamento (feições)

 

pensamento
(feições)

e fazer a coisa
amor se (cinema)e pensar a coisa
e pensar é fazer a coisa
e a coisa se faz pensando
e fazendo a coisa se pensa
e pensando a coisa se faz
e pensar a coisa é fazer
e fazer pensar é a coisa
e pensar fazer é quase
a mesma coisa

(03.III.05)

Em Retrato desnatural. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 31.

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De retrato desnatural (diários – 2004 a 2007) - amor se (cinema)

 

amor se
(cinema)

a palavra se
em sua secura
é único entrave
entre amantes

entrementes
a palavra sim
o kama sutra
traço de união
solda leito refúgio
beira hagiografia
oásis descampado
manancial de luxúria
tórrido cupido

de uma palavra
a outra sua mão
afaga a minha ora
oferta a sisudez
do se ou talvez
ora (e meia) insinua
a nudez do cúpido
sim!

(28.III.05)

Em Retrato desnatural. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 52.

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De retrato desnatural (diários – 2004 a 2007) - lâmpada (anatomia)

 

lâmpada
(anatomia)

a paulo henriques britto

antigamente designava o archote. por um lado a vejo pálida. por outro, reluzente. combinação seminua de brandura e fulgor. útero parindo sementes em raios, brumas, visões – matérias que nos cercam. agasalhos do corpo, a comparecer, desaparecer, restar. 
penso um fio no teto, folhetins de motéis baratos, pensões, casebres, rincões. luxo essencial, coisa a exercer função. realça a pobreza do quarto: cama, mesa, cadeiras, pequenos quadros. (ao lado banho.)
altas horas o filamento permite leitura, o bulbo emite calor. despir-se de todo, a fusão na meia-luz. o invento rasga em ondas o que a treva insinuava. como dardo, fúria, amor. 

(03.II.06)

Em Retrato desnatural. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 83.

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De retrato desnatural (diários – 2004 a 2007) - crônicas (absurdas)

 

crônicas
(absurdas)

certa noite, um ator me pediu que escrevesse uma
peça, a ser representada por negros. mas o que é
mesmo um negro? e, primeiramente, qual é a cor?

jean genet, os negros*

a diogo de oliveira

índio bom é índio morto, dizia o general americano. e negro? e branco? índio da américa do norte vale mais que do sul? vale também a inversão do mapa do continente, como perpetrou torres-garcía? e se revirássemos o mapa-múndi? ficaríamos mudos? serão todos um mesmo “índio”? o que revela o nome, um continente, uma nação, um povo, ou uma cor da pele? mas qual é mesmo a cor? os índios são fantasmas que assombram o passado de nosso futuro, alguns famintos e desdentados, deslet rados outros. por milagre protegidos da peste da sede da caça do assalto da falta de visão, a má cegueira que destrói tudo [   ]

(18.II.05)

Em Retrato desnatural. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 92.

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De retrato desnatural (diários – 2004 a 2007) - tauromaquia (desfecho)

 

tauromaquia
(desfecho)

imperceptivelmente,
encerraram-me fora do mundo

konstantinos kaváfis, “muralhas”

a vida por um fio. um no outro pela metade. em cima teseu pressente o touro. embaixo o minotauro reflete o opositor. presos à incondição, músculos adictos à luta. pelos e cabelos escuros na noite, espada. vestígios femininos. o suor rebrilha, dentes rilham a dor. arfam esmurram rugem – filetes. a quatro patas o impossível amor. alguém vai morrer para o labirinto desatar. desejo de ser dois num corpo só. vence a fera no homem. reconhece os chifres o animal das galerias. urros entre muros. saída

(01.III.06)

Em Retrato desnatural. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 102.

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De retrato desnatural (diários – 2004 a 2007) - delírios (sinuosos)

 

essa escrita em palimpsesto.

aula de pintura: sábio emulador de picasso, francis bacon destruía sistematicamente suas primeiras telas. já vendidas, solicitava-as de volta e rasgava, triturava, queimava, ficando apenas as sobras, chamadas de “obras”.

limites: todas as artes ditas plásticas hoje bem ou mal experimentam, só essa pintura ingênua que se encontra em galerias de shopping permanece vagamente impressionista, sentimental.

o óbvio (o ovo): sem exceção, todos os livros verdadeiramente lidos foram reescritos – do centro às margens.

partida: na literatura/na vida, ficção ou ensaio, só conta o reescritor. escrever é reescrever desmesuradamente. ou ainda, noutro plano, transcrever, escrita sobre escrita. o reescritor é também transcritor.

(30.III.05)

Em Retrato desnatural. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 146.

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De retrato desnatural (diários – 2004 a 2007) - saliência (viseira)

 

saliência
(viseira)

segundo godard, em o elogio do amor, quando vejo uma paisagem vejo mais que a paisagem, quando leio um livro compulso mais de um volume. pois eu, quando vejo um vidro pintado ou esculpido a chumbo e outros metais, vejo a coisa vítrea, a estrutura metálica, as ranhuras e muito mais. vejo a vacância que não circunscreve as formas: a obturação, o ângulo de visão que é também um ponto cego. o vidro me dá o instantâneo de praticamente tudo sem apaziguar a vista, uma vez que o vidro se vê no ato de olhar. filtrando o mundo contemplado, o vidro obviamente é o mais transparente dos objetos.
vitrificação é o lugar de passagem por natureza, daí a necessidade vital das vidraças/vitrais/vitrines, que são formas inconcisas do respirável. o grande vidro (duchamp) sustenta a respiração, é alento, sopro, combustível. à diferença do espelho que, rijo, apenas reflete, o vidro desnuda como raios x. viver através do vidro se torna um vício. nele todos nos tornamos testemunhas oculares, solitários solidários, ímãs irmãos, imas irmãs. 

(21.IV.05)

Em Retrato desnatural. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 243.

 

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