COLEÇÃO CONTEMPORÂNEA


COLEÇÃO CONTEMPORÂNEA:
Filosofia, Literatura & Artes

EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
(Grupo Record)

Direção: EVANDO NASCIMENTO

 

A coleção se propõe a tratar de temas atuais nas áreas de Filosofia, Literatura & Artes. Participam nomes de destaque na produção cultural contemporânea, sempre com a finalidade de refletir sobre assuntos, pensadores e correntes que de algum modo ajudem a re-ver o mundo em tempos de cultura planetária. O enfoque é o de um pensamento original, em linguagem acessível, mas preservando a profundidade e o rigor da reflexão. 

Desde que foi lançada, a coleção já recebeu dois prêmios: na categoria ensaios da Biblioteca Nacional (Paulo Henriques Britto, A tradução literária) e na categoria ensaios da Academia Brasileira de Letras (João Cezar de Castro Rocha, Machado de Assis: uma poética da emulação). Além disso, obteve duas indicações, ambas na categoria ciências humanas do Jabuti: Paulo Henriques Britto, A tradução literária, e Evando Nascimento, Clarice Lispector: uma literatura pensante.

Próximo lançamento previsto: Estudos literários hoje: uma abordagem, por Evelina Hoisel.

Aquisições podem ser realizadas por meio do site da editora, http://www.record.com.br/colecoes_colecao.asp?id_colecao=170 ; como também por meio de outros sites (Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Livraria Argumento, Livraria da Vila, Blooks Livraria, Submarino, entre outros) ou nas melhores livrarias.

 

A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno - Márcio Seligmann-Silva

 


1. Márcio Seligmann-Silva. A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno.

Márcio Seligmann-Silva é um notável especialista nas obras de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno. Dividido em duas partes, este volume trata separadamente da produção de cada um dos filósofos, sem perder de vista, contudo, um diálogo virtual ou real entre esses dois grandes amigos intelectuais. Sem tampouco cair num comparatismo redutor, desenvolve-se aqui, de forma introdutória, uma rica discussão sobre as obras de autores de primeira grandeza, cujas contribuições para o debate filosófico e cultural deste nosso século XXI são decisivas.

Partindo-se de uma reflexão sobre a própria noção de atualidade, propõe-se, em vez de um pragmatismo imediatista, entender como os eventos do passado reverberam no presente. Menos do que uma simples recordação do acontecido, interessa realizar um ato de memória, fazendo incidir sobre o passado a força reflexiva do agora e sobre nosso presente a energia inovadora daqueles pensadores.

Especificamente em relação a Benjamin, são referidos alguns dados biográficos, que se apresentam sob o signo da catástrofe, a maior delas os eventos trágicos da Segunda Guerra, que levaram ao suicídio do filósofo na fronteira entre a França e a Espanha. Seligmann elucida finamente tópicos benjaminianos como “imagens do pensamento”, seu judaísmo sui generis, a questão da melancolia, a teoria da linguagem, a relação com o romantismo, a crítica da violência, o valor de aura na obra de arte e o conceito de experiência, entre outros. Aquele que sonhou em ser “o primeiro crítico da literatura alemã”, estabeleceu sem dúvida as mais altas conexões entre literatura e filosofia.

Um dos destaques dados por Seligmann ao pensamento de Adorno foi a recusa em escrever uma história monumental, aquela que tradicionalmente acumula fatos como se fossem partes de uma grande epopeia. Já a opção pelo ensaio, em vez do tratado, mostra o interesse por parte de Adorno em evitar a grandiosidade do estilo, que tenderia a totalizar a existência em categorias demasiado abstratas, sem dar conta do que efetivamente ocorre. Destacam-se ainda a dialética do esclarecimento, as relações críticas com a indústria cultural, o interesse pela música, a interlocução com Benjamin, a teoria reformulada do sublime, o conceito de inumano e o valor adorniano de redenção.

Assim, o duplo legado de Benjamin e de Adorno se vê contemplado por uma reflexão que leva em conta os grandes debates do século passado, abrindo para uma perspectiva absolutamente atual e a caminho do porvir.

Evando Nascimento

 

Márcio Seligmann-Silva, doutor pela Universidade Livre de Berlim e pós-doutor por Yale, é pesquisador do CNPq e professor livre-docente de Teoria Literária na Unicamp. É autor de Ler o livro do mundo. Walter Benjamin: romantismo e crítica poética (Iluminuras/FAPESP, 1999, vencedor do Prêmio Mario de Andrade de Ensaio Literário da Biblioteca Nacional em 2000), Adorno (PubliFolha, 2003) e O local da diferença. Ensaios sobre memória, arte, literatura e tradução (Editora 34, 2005, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Melhor Livro de Teoria/Crítica Literária 2006); organizou os volumes Leituras de Walter Benjamin: (Annablume/FAPESP, 1999; segunda edição 2007), História, memória, literatura: o testemunho na era das catástrofes (Unicapm, 2003) e Palavra e imagem, memória e escritura (Argos, 2006) e coorganizou Catástrofe e representação (Escuta, 2000). Traduziu obras de Walter Benjamin, G.E. Lessing, Philippe Lacoue-Labarthe, Jean-Luc Nancy, J. Habermas, entre outros. Possuí vários ensaios publicados em livros e revistas no Brasil e no exterior.

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Ficção brasileira contemporânea - Karl Erik Schøllhammer

 


2. Karl Erik Schøllhammer. Ficção brasileira contemporânea.

O leitor minimamente iniciado em literatura brasileira encontrará neste livro um apanhado de nossa produção ficcional das últimas três décadas, até chegar à produção recente, que tem sido chamada de “Geração 00”. Karl Erik Schølllhammer, renomado teórico e crítico de literatura, inicia sua reflexão expondo a dificuldade de definir o que é “contemporâneo”, termo que sofre concorrência de correlatos, tais como atual, presente, moderno, pós-moderno, entre outros. Assim, somos levados a repensar a questão da periodização histórica a partir de um olhar de hoje, mas sem perder a especificidade de cada momento.

Numa linguagem precisa e clara, aliada a um grande rigor da pesquisa, o autor propõe análises de conjunto, tanto quanto faz recortes em profundidade, lendo e comentando a obra de escritores ficcionistas. Inevitavelmente seletiva, a abordagem não pretende em absoluto esgotar o tema, mas sim dar uma contribuição decisiva aos estudos críticos em torno da literatura produzida em território nacional, mantendo com a realidade brasileira complexas relações de aproximação e afastamento, de adesão e ceticismo. Todavia, a reflexão se faz sem perder de vista o que acontece em outros países, já que se tornou impossível tratar isoladamente qualquer literatura, numa época de cultura planetária.

O autor não se furta a emitir avaliações pessoais, propiciando o confronto com outras opiniões sobre o mesmo assunto, vigentes na Universidade e na mídia. Com isso, leva-se às últimas consequências o sentido da palavra crítica, relacionando-a a uma verdadeira política da leitura. Bernardo Carvalho, Rubem Fonseca, Nélida Piñon, Miltom Hatoum, Luiz Ruffato, Adriana Lisboa, João Gilberto Noll, André Sant’Ana, Silviano Santiago, Cristóvão Tezza são alguns dos nomes referidos e comentados ao longo do volume.

Sob todos os pontos de vista, este livro deverá se tornar uma referência incontornável para se discutir hoje a produção literária no Brasil, a qual se encontra em plena transformação, em busca de novos e argutos leitores.     

Evando Nascimento

 

Karl Erik Schøllhammer é um renomado teórico e crítico de literatura, professor associado do departamento de Letras da PUC-Rio e pesquisador com bolsa de produtividade do CNPq e Cientista do Nosso Estado da Faperj (2007-2009). Autor, coautor e editor de vários livros, entre eles: Linguagens da violência (2000), Novas epistemologias (2000), Literatura e mídia (2002), Literatura e cultura (2003), Literatura e imagem (2005), Literatura e memória (2006), Henrik Ibsen no Brasil (2008), Além do visível: o olhar da literatura (2007), e também tradutor de autores escandinavos, como Peter Høgh, Lars Noren, Søren Kierkegaard, Jon Fosse e Henrik Ibsen.

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Canção popular no Brasil - Santuza Cambraia Naves

 



3.
Santuza Cambraia Naves. Canção popular no Brasil

 

Neste volume, Santuza Cambraia Naves propõe um recorte na história da Música feita no Brasil a partir do século XX. Consciente de ser impossível traçar um vasto panorama de uma produção artística de grande qualidade, a opção foi escolher – no campo extenso da música de extração popular – o que chama de canção crítica.

A expressão canção crítica, em vez de mero rótulo classificador, se torna uma ferramenta conceitual para refletir sobre aquele tipo de composição que, de algum modo, estabelece uma articulação entre o estético e o cultural. Variando sua veiculação de acordo com o período – sobretudo o rádio até os anos 1960, em seguida a televisão a partir dos anos 70 e, mais recentemente, o ciberespaço –, a música brasileira sofreu até certo ponto com as dicotomias hierarquizantes, entre o erudito e o popular, ou entre o popular e o “popularesco” (como pregava Mário de Andrade). A forte massificação dos meios de comunicação, principalmente a partir da segunda metade do século XX, fez com que o pop em certo sentido reconciliasse essas categorias, ou pelo menos torna-se menos rígidas as distinções, que, para alguns estudiosos, ainda continuaram existindo. 

O surgimento da bossa nova no final dos anos 50 vai ser um divisor de águas nos estudos sobre nossa tradição musical. Os defensores do purismo brasileiro combaterão ferozmente esse estilo moderno e estilizado de fazer samba, bastante permeável às influências do jazz. Isso se repetirá, nos anos 60, com novas nuanças: estilos como a Jovem Guarda e, tendo outras implicações, o Tropicalismo serão atacados por se deixarem contaminar pela invasão alienígena do rock. Para críticos como Lúcio Rangel e José Ramos Tinhorão é totalmente espúria a criação musical que não preserva nossas raízes e pretende se inserir num contexto internacional.

Afastando-se de qualquer preconceito nacionalista, este volume aborda as mutações por que passou nosso cancioneiro, que, do samba ao hip-hop de hoje, se abriu ao diálogo com tradições musicais vindas de outros países, tal como, aliás, o próprio samba, o qual, não esqueçamos, tem suas origens em ritmos africanos. Não se trata aqui de uma visão evolucionista, mas sim de uma análise refinada sobre as implicações da chamada canção crítica, a qual serve de fio condutor ao estudo.

A autora situa o surgimento desse tipo de canção no final dos anos 50, quando a composição musical estabelece fortes vínculos com o contexto cultural e o artista se torna uma espécie de intelectual atuante. Não interessava mais apenas fazer música, mas também conectar a arte com os debates culturais de seu tempo, tal como será configurado de modo exemplar por Caetano Veloso e Chico Buarque. Como diz de forma lapidar Santuza Cambraia Naves: “E ao estender a atitude crítica para além dos aspectos formais da canção, o compositor popular tornou-se um pensador da cultura”.

Sem pretensões de totalização, nem de esgotamento do tema, este trabalho traz uma reflexão essencial para o leitor que queira entender os rumos contemporâneos da Música popular no Brasil. 

Evando Nascimento


Santuza Cambraia Naves (1952-2012) foi professora de antropologia do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio e pesquisadora de música popular. Além de vários ensaios acadêmicos, publicou O violão azul: modernismo e música popular; Da bossa nova à tropicália; A MPB em discussão – entrevistas, em coautoria com Frederico Coelho e Tatiana Bacal, e Velô.

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Corpo em evidência - A ciência e a redefinição do humano - Francisco Ortega e Rafaela Zorzanelli

 


4. Francisco Ortega e Rafaela Zorzanelli.
Corpo em evidência: a ciência a e a redefinição do humano

 

Francisco Ortega e Rafaela Zorzanelli abordam neste volume o modo como na contemporaneidade nossa visão do próprio corpo se tornou cada vez mais mediada pela Medicina. Intervenções cirúrgicas de todo tipo, escaneamentos internos da matéria, medicamentos reguladores das funções são exemplos de como a estrutura corporal se deixou apreender pela prática e pelo discurso normalizadores da ciência médica.

A partir do século XV, desenvolvem-se tecnologias que estabelecerão limites entre, por exemplo, o normal e o patológico. Mas foi sobretudo no século XIX que se consolidou todo um saber acerca do corpo, visando a reduzir os efeitos das enfermidades e a adiar o momento da morte.

A despeito desse amplo esquadrinhamento, o corpo permanece, no entanto, como um grande enigma a ser desvendado.

A visualização do interior corporal, por meio da dissecação, dos raios-x e, mais recentemente, dos recursos de ultrassonografia são exemplos das tentativas de mapeamento e controle desse vasto território. Assim, é todo um saber que se consolida de forma praticamente inquestionável, intentando sempre vencer novos desafios.

Em outro momento, os autores se dedicam a analisar como atualmente o corpo é submetido a todo tipo de intervenção. As próteses visam tanto a suprir deficiências inatas ou adquiridas ao longo da vida, quanto a desempenhar tarefas não previstas no “projeto” original. Se os limites corporais são expandidos é também uma vasta parafernália biotecnológica que submete a corporeidade a todo tipo de manipulação.

Como dizem de forma precisa Ortega e Zorzanelli: “Esse rol de processos é compreendido como modulações biopolíticas, isto é, como nuances nos modos como os fenômenos próprios à vida da espécie humana são utilizados no campo das técnicas políticas. As vicissitudes contemporâneas apontam para a emergência de formas de cidadania biológica e informacional”.

A isenção e a profundidade crítica de que é dotado este estudo o torna uma referência indispensável para os que se interessam pelas recentes abordagens da questão corporal, bem como por suas consequências para as experiências sócio-políticas do novo milênio.

Evando Nascimento

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Nietzsche, vida como obra de arte - Rosa Dias

 


5. Rosa Dias. Nietzsche, vida como obra de arte.

 

Nos últimos anos, a bibliografia de e sobre Nietzsche tem-se ampliado no Brasil, com a tradução da maior parte de seus escritos importantes e com um grande número de colóquios e publicações de qualidade dedicados a sua obra. Este livro vem acrescentar um diferencial reflexivo à fortuna crítica nietzschiana, em diálogo profícuo com outros intérpretes. Rosa Dias nos propõe não apenas levantar e explicar categorias, mas pensar junto com o filósofo alemão, tendo em vista um dos aspectos fundamentais de sua produção: a relação entre arte e vida.

Ressalta desde logo o fato de Nietzsche não querer elaborar simplesmente “mais uma” filosofia, mas sim um tipo de pensamento que se incumbe de reavaliar a existência humana como um todo, em suas complexas conexões com o mundo. A primeira implicação é a de que o saber teórico vai ser deslocado (mas jamais inteiramente banido) por uma prática de vida que, a partir de então, põe o corpo em evidência. Sem cair num empirismo inócuo, toda uma conceitualidade ocidental começa a ser reinterpretada e, sobretudo, reavaliada pela ótica do autor de Assim falou Zaratustra.

Nesse sentido, o valor deixa de ter uma mera função judicativa, para ser o móvel mesmo das ações humanas. O filósofo se transmuta então em avaliador. Como diz Rosa Dias, “sua tarefa deve ser a de criar novos valores que ajudarão a espécie humana a atingir um nível superior. É só como filósofo criador que ele pode ser útil ao seu semelhante e aos outros seres vivos”. A vontade de potência que move esse pensamento não se confina mais à abstração conceitual nem ao corpus desencarnado da tradição metafísica.

É apenas por meio do jogo das forças que se inicia no corpo e da atividade criadora aí implicada que a existência filosófica e humana em geral pode encontrar sua plena justificação. A potência filosofante, tal como demonstra este volume, deve redobrar a própria potência vital a fim de reduzir os efeitos niilistas da lógica clássica, em suas oposições binárias entre bom e mau, razão e instinto, transcendental e empírico etc. Segundo a autora, “a vida, como vontade de potência, como eterno superar-se, é, antes de tudo, atividade criadora, e como tal é alguma coisa que quer expandir sua força, crescer, gerar mais vida”.

Por esse motivo, a palavra Arte jamais deveria ser tomada em seu sentido tradicional, que deriva de um ideal do Belo plasmado pelo menos desde a cultura renascentista. Em Nietzsche, o artístico é um duplo do trágico em suas origens gregas, por assim dizer pré-socráticas.

A força deste trabalho de Rosa Dias, autora de inúmeros e amplamente reconhecidos trabalhos sobre o pensador do eterno retorno, consiste em ser dotado da capacidade inventiva dos textos a que se refere. Cada categoria é recriada no sentido de percorrer com um novo olhar o jogo das avaliações nietzschianas. Desse modo, abre-se o pensamento para o porvir como transmutação deste nosso tempo de agora, com auxílio da arte. Haveria tarefa mais ambiciosa para qualquer intérprete e pesquisador(a)?

Evando Nascimento

 

Rosa Dias é doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora-adjunta de Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É autora de Nietzsche educador (São Paulo, Scipione, 3 ª edição, 2003), Nietzsche e a música (Rio de Janeiro, Imago, 1994), As paixões tristes. Lupicínio e a dor-de-cotovelo (Rio de Janeiro, Leviatã, 1994), Nietzsche e a música (São Paulo/Ijuí, Discurso Editorial/Unijuí, 2005), Amizade estelar: Schopenhauer, Wagner e Nietzsche (Rio de Janeiro, Imago, 2009), Lupicínio e a dor de cotovelo (Rio de Janeiro, Língua Geral, 2009) e Dias de Nietzsche em Turim: Roteiro e Pesquisa (2004).

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Poesia e filosofia - Antonio Cicero

 


6. Antonio Cicero. Poesia e filosofia.

 

Este novíssimo livro de Antonio Cicero tem, em certo sentido, a forma daquilo de que fala: a delicada beleza da poesia e a profundidade da filosofia como discursos ímpares no Ocidente. Autor de um dos ensaios filosóficos mais importantes já publicados no Brasil, O mundo desde o fim, Antonio Cicero é igualmente um de nossos poetas mais respeitados, tendo escrito obras-primas como o arquifamoso “Guardar”, além de “Dilema”, “Minos”, “O país das maravilhas”, “A cidade e os livros” e “Aufklärung”, entre outros.

Numa linguagem densa e fluente, os ensaios aqui enfeixados dão conta das relações complexas entre dois discursos que guardam grandes semelhanças – já pela importância que assumiram ao longo da história de nossas culturas –, bem como marcantes diferenças. Ressaltando ora as similitudes, ora as distinções, Antonio Cicero evita cair num amálgama que reduziria, no pior dos casos, o filosófico a uma versão racional e objetiva do poético ou então a poesia a uma versão intuitiva do que os filósofos por meio de um árduo trabalho conseguem alcançar.

Não se trata nem de uma coisa nem de outra. Desde logo porque o escopo fundamental da filosofia seria o de, por meio de hipóteses, proposições e teses, desenvolver um discurso que explique o real em sua existência empírica e transcendental. Já o poético, segundo Antonio Cicero, embora também enraizado no real e em tudo o que o estrutura, tem sua finalidade em si mesmo, ou seja, busca realizar, por meio de construções a um só tempo tradicionais e irruptoras, líricas e antilíricas, um tipo de expressão como forma de beleza e verdade, fantasia, ritmo e vida.

Um dos momentos mais decisivos do estudo é quando o autor estabelece a diferença entre o pensar sobre o mundo, inerente à reflexão filosófica, e o pensar o mundo, desprovido de preposição, inerente à invenção poética. Assim, sem haver oposição simples entre essas duas atividades, mas sem tampouco ocorrer uma fusão destruidora de suas especificidades históricas, seria a força do pensamento o que aproxima filosofia e poesia; no entanto, o modo como exercem tal força as distingue. “O que se chama pensar” não é, todavia, uma pergunta de resposta fácil. Com efeito, foi necessária uma história de quase três milênios para se esboçar alguma elucidação. E a forma como filósofos e poetas têm para responder é escrevendo: uns, ensaios ou tratados; e outros, poemas ou canções. Exatamente como tem feito, felizmente para nós, Antonio Cicero ao longo das últimas quatro décadas. O presente volume de algum modo sintetiza esse maravilhoso percurso.

Evando Nascimento

 

Antonio Cicero é poeta, filósofo e letrista. É autor, entre outras coisas, dos livros de poemas Guardar (1996), A cidade e os livros (2002), e Porventura (2012); e é também autor dos livros de ensaios filosóficos O mundo desde o fim (1995) e Finalidades sem fim (2005) e Poesia e filosofia (2012). Além disso, várias entrevistas suas foram reunidas no livro, organizado por Arthur Nogueira, Encontros: Antonio Cicero (2013). É também autor de inúmeras letras de canções, tendo como parceiros compositores como Marina Lima, Adriana Calcanhotto e João Bosco, entre outros. Em 2012, ele foi agraciado com o “Prêmio Alceu Amoroso Lima – Poesia e Liberdade”. 

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Clarice Lispector: uma literatura pensante - Evando Nascimento

 


7. Evando Nascimento. Clarice Lispector: uma literatura pensante.

 

Neste livro Evando Nascimento ‘faz a diferença’ em relação à tradição crítica que vem sendo construída em torno da obra de Clarice Lispector.

A especificidade de sua leitura não reside apenas na familiaridade que mantém com a obra da própria Clarice, patente nas análises de romances, contos, crônicas, páginas femininas, cartas, conferência, entrevistas, cujos resultados de leitura parecem surgir naturalmente, no fluxo de uma reflexão madura, sem reduções provenientes de formatos previamente estabelecidos.

Nem reside apenas, creio eu, no fato de recorrer a tantos escritores, de várias paragens, que convoca ao longo das suas considerações e na medida em que ajudam a esclarecer pontos pertinentes dos textos que lê, e que compõem um leque amplo de relações.

Poderia, sim, considerar como um dos eixos de sua ação crítica, uma situação de leitor atento e alerta aos movimentos que permeiam essa busca da sua “coisa’”, mostrando-se fiel à postura que adota: a de seguir, ou acompanhar, ou perseguir, ou “pensar” as pistas deixadas por essa linguagem ficcional, construída pela via da mudança, do ininteligível, do inexpressivo e do impalpável. 

Nesse percurso, seria possível identificar umas tantas paradas obrigatórias para nós, leitores. Cito apenas duas, para não tirar do leitor a alegria da surpresa. Primeira: a lúcida avaliação crítica das sugestões propostas por Fernando Sabino para o romance A maçã no escuro. Segunda: a leitura que faz da dança das letras e frases dos manuscritos, metáfora dos deslizamentos de sentidos (nos vários sentidos do termo) no plano de páginas de originais, numa espécie de vertigem gráfica de desestabilização de padrões.

Considerando a diversidade da matéria crítica aqui desenhada por esse leitor pensante, e à sua revelia – por ele não se considerar efetivamente um crítico – , encontro justamente nesse seu modo de empreender o percurso de exploração da literatura de Clarice como um sempre “outro”, na sua “radical diferença” (privilegiando Derrida, obra que conhece a fundo), o cerne de sua matéria reflexiva, que lhe permite apreender “erros” humanos de uma arcaica tradição europeia falocêntrica e mostrar-se disponível a detectar os meandros de um largo horizonte de caráter humanizador.

Daí essa marca ao mesmo tempo firme e indelével, a da diferença, que traduz o teor tanto dos textos que examina – com rigor e sensibilidade,– quanto do seu próprio texto – legado já significativo no campo do pensamento crítico brasileiro.

Nádia Gotlib

 

Evando Nascimento é ensaísta, escritor e professor universitário. Dirige a Coleção Contemporânea: Literatura, Filosofia & Artes para a Civilização Brasileira (Grupo Record). Já ministrou cursos e palestras sobre literatura, filosofia e artes em diversas instituições brasileiras e internacionais, como Universidade Federal de Juiz de Fora, Universidade Federal Fluminense, Université de Grenoble e Université de Paris, entre outras. Publicou os livros de ficção Retrato desnatural (2008, Record), Cantos do mundo (2011, Record, finalista do Prêmio Portugal Telecom em 2012) e Cantos profanos (Globo, 2014). Publicou ainda os livros de ensaio Derrida e a literatura (É Realizações, 3ª. ed. 2015) e Clarice Lispector: uma literatura pensante (Civilização Brasileira, 2012), entre outros.

 

(Posfácio)

Quando for interrompida a infinita servidão da mulher, dizia Rimbaud, “quando ela viver para e por ela, o homem—até aqui abominável—tendo lhe dado a deixa, ela será também poeta! A mulher encontrará o desconhecido!”. L’Inconnu. Alguns anos depois, um muito jovem Georges Bataille também acreditava que essa emancipação era mais do que necessária entre nós, porque os latino-americanos obrigamos a mulher a levar, durante muito tempo, uma vida humilhante; mas augurava também que esse sistema de custódia e dominação que se exercia sobre a mulher estava condenado a desaparecer, salvaguardando, porém, o impulso dos desejos, com toda a sua brutalidade primitiva, que então se transformaria em uma corrupção disseminada de costumes, tão generalizada como a que caracterizava então a própria Europa. Levaria tempo atingir essa meta.

Coube a Clarice Lispector viver uma sombria época de transição. Em 1943, o crítico Álvaro Lins julgava-se incompetente para avaliar sua obra e exigia da jovem escritora um “verdadeiro romance”. Quando, nos anos 70, ela submete Água viva à apreciação do Instituto Nacional do Livro, o censor, Hélio Pólvora, recusa-lhe o subsídio com o argumento de não saber, ao certo, de que livro se trata. “Romance certamente não é. Clarice Lispector resolveu abolir o que chama de técnica de romance e escrever segundo um processo de livre associação de idéias, ou de palavras. Tem-se a impressão, lendo este seu novo livro, que ela colocou o papel na máquina e foi registrando o que lhe vinha à cabeça, sem preocupação de unidade, coerência e fábula. Objeto Gritante — o título primitivo de Água viva — é mais uma de suas coisas, das muitas coisas que Clarice Lispector tem perpetrado sob o rótulo de romance”. Aguardando sempre um aproveitamento moral, uma alegoria pedagógica, o sistema nem sempre conseguiu entender a singularidade de Clarice Lispector. Pouco antes, em agosto de 1970, ela mesma admitia, em A Descoberta do Mundo: “Bem sei o que é o chamado verdadeiro romance. No entanto, ao lê-lo, com suas tramas de fatos e descrições, sinto-me apenas aborrecida.

E quando escrevo não é o clássico romance. No entanto é romance mesmo. Só que o que me guia ao escrevê-lo é sempre um senso de pesquisa e de descoberta. Não, não de sintaxe pela sintaxe em si, mas de sintaxe o mais possível se aproximando e me aproximando do que estou agora pensando na hora de escrever. Aliás, pensando melhor, nunca escolhi linguagem. O que eu fiz, apenas, foi ir me obedecendo”. Clarice é, no sentido barthesiano, uma biografóloga, e sua escrita, uma preparação para o romance.

Como nos explica Evando Nascimento, Clarice torna impotente o enquadramento absoluto, ela joga, dribla, assume, mas também usa e descarta gêneros, quer dizer, multiplica e anula, ao mesmo tempo, a diferença do gênero e do gender. Em 1972, a 27 de maio, num fragmento desaproveitado de A descoberta do mundo, Clarice confessa estar lendo Quarup. “É muito, é muitíssimo excelente. Eu ia dizer que as leitoras de espírito delicado não o deviam ler, pois trata-se de um livro franco, realmente sem meias palavras em matéria de fatos. Mas resolvi, muito pelo contrário: as de espírito delicado também o devem ler, para ficarem menos delicadas, para se fortificarem. Vida é vida, e não adianta fugir: quando a  gente foge, ela corre atrás. É melhor ir de encontro a ela. É mais bonito para uma pessoa”. Dois meses mais tarde, 5 de agosto, em outro esparso, reaparece o encontro, dessa vez com Guimarães Rosa, sob o rótulo “Viver é perigoso”.

Clarice disse lembrar que, em um dos seus contos, ela teria escrito “segurou-lhe a mão, guiando-a, afastando-a do perigo de viver”, mas como tem preguiça de conferir no livro, cita de cor e não consegue precisar que, de fato, em seu conto “Amor”, diz "segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver". Não faz mal. O importante é o que Clarice diz a seguir: “Minha vaidade é que Guimarães Rosa, com o seu célebre ‘viver é perigoso’, tenha tido a mesma sensação que eu”. Clarice não reivindica a cronologia, ser a primeira a formular a ideia. Sua matéria é a memória, que humaniza e reconfigura o tempo, decantando-o como imagem ausente, a Coisa, fortemente ancorada, porém, no inconsciente. “O que eu fiz, apenas, foi ir me obedecendo”. Por isso Clarice escreve coisas e, como ela mesma diz, Guimarães Rosa profere, no entanto, sentenças. Eis a diferença, de gênero e de gender, em pleno ato.

Clarice Lispector: uma literatura pensante. Ética e Ficção é uma importantíssima contribuição de Evando Nascimento, com decidido “senso de pesquisa e de descoberta”, no intuito de aprofundar essa preparação para o romance de nossa escritora ímpar.

Raúl Antelo

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A tradução literária - Paulo Henriques Britto

 


8. Paulo Henriques Britto. A tradução literária.

 

Respaldado em ampla e reconhecida experiência como tradutor do inglês para o português, Paulo Henriques Britto reflete aqui acerca dessa complexa tarefa. Isso se faz por meio de uma introdução teórica e de exemplos que se multiplicam ao longo das páginas deste precioso volume. Precioso tanto para iniciantes no assunto quanto para especialistas em teoria e prática da tradução, os quais frequentemente se deparam com dificuldades comuns a quem quer que lide com o assunto.

Sem temer assumir atitudes polêmicas em relação a alguns dos teóricos mais em voga na atualidade, o poeta e tradutor Paulo Henriques Britto desenvolve suas próprias ideias com objetividade e argúcia. Mesmo aqueles que discordem pontualmente, ou até em grande parte, das formulações aqui defendidas, encontrarão rico material para confirmar ou, se for o caso, infirmar as concepções que defendem. Em outras palavras, a discordância se torna salutar na medida em que permite redimensionar muitas das teses já assentadas sobre o que é traduzir e suas inúmeras concretizações.

Desde os anos 1970 – quando ainda era considerada uma atividade meramente subsidiária, desprovida de valor próprio –, a tradução tem sido pensada como prática cultural, que envolve não apenas idiomas mas também culturas distintas, numa história em que estão implicadas as próprias relações interculturais através do globo. E é a importância do ato de transladar ou verter um texto ou uma frase de um idioma a outro, com todas as marcas culturais e linguísticas aí implicadas, que o autor disseca de modo preciso em cada um dos capítulos. Como ele mesmo diz: “O mundo está cheio de leitores interessados em obras escritas em idiomas que eles desconhecem. Como tradutores, nossa tarefa é aproximar esses leitores tanto quanto possível dessas obras. As soluções que encontramos são sempre provisórias, relativas, incompletas, mas isso não nos incomoda tanto assim. Pois não somos apenas nós, tradutores, que somos obrigados a aceitar soluções imperfeitas: nenhuma atividade humana complexa chega à perfeição, ainda que a ela aspire e a tome como meta”.

Não se trata, contudo, de um manual de tradução, mas sim de um instrumento reflexivo a ser consultado por todos os que trabalham, direta ou indiretamente, com traduções, versões e adaptações. Todavia, difícil é imaginar, num mundo amplamente globalizado, alguém que, tendo certo nível de alfabetização, não se relacione de um ou de outro modo com a tarefa tradutória.

Evando Nascimento

 

Paulo Henriques Britto é tradutor e professor de tradução, criação literária e literatura na PUC-Rio. É autor de oito livros (poesia, ficção e ensaio). Como tradutor, é responsável por mais de cem publicações, em sua maioria obras de ficção, mas também de poesia. Seu último livro editado é Formas do nada (poemas), e sua tradução mais recente é Grandes esperanças, de Charles Dickens, ambos lançados pela Companhia das Letras.

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Machado de Assis: por uma poética da emulação - João Cezar de Castro Rocha

 


9. João Cezar de Castro Rocha. Machado de Assis: por uma poética da emulação.

 

Neste volume, João Cezar de Castro Rocha desenvolve amplamente o que chama de poética da emulação em Machado de Assis. Tendo organizado seis coletâneas de contos do ficcionista para a editora Record, além de publicar diversos artigos sobre o assunto no Brasil e no exterior, o pesquisador se destaca como um dos mais argutos e originais especialistas machadianos.

A abordagem demonstra, de forma brilhante, como a ficção machadiana, sobretudo na chamada “segunda fase”, dialoga com os grandes autores da tradição: Pascal, Xavier de Maistre, Shakespeare, Stendhal, Poe, Baudelaire e José de Alencar, entre inúmeros outros. A hipótese fundamental é que o maior escritor da dita América Latina no século XIX tenha redimensionado a antiquíssima técnica de emulação, desenvolvida pelos clássicos gregos e latinos e retomada com outras implicações no renascimento. Emular diz respeito à necessidade de considerar autores prévios como mestres, elaborando textos que, sem jamais perder de vista o modelo original, acabam por engendrar uma nova obra.

Com o advento da figura do autor como demiurgo no período romântico, a emulatio passa por uma transformação radical, pois o escritor não mais precisa ficar preso a códigos e modelos, mas elege livremente suas referências para interlocução de igual para igual, constituindo aquilo que, a partir dos anos 1960, será nomeado como apropriação ou expropriação diferencial.

Em Machado, as inúmeras alusões culturais e artísticas, em vez de denotarem subserviência, tornam-se o instrumento capaz de problematizar a relação dissimétrica entre os centros europeus e as ex-colônias, estas ainda em fase de autoafirmação como nações independentes. Como diz de forma lapidar João Cezar de Castro Rocha: “O autor de Páginas recolhidas parece ter compreendido que, se um autor, oriundo de contextos não hegemônicos, dificilmente se pode considerar ‘original’, então a tradição literária pode ser apropriada com irreverência. Por conseguinte, a combinação machadiana de diversos séculos da tradição e de distintos gêneros literários, e, acima de tudo, o resgate de atos de leitura e de escrita típicos do sistema retórico pré-romântico favorecem a ruptura das Memórias póstumas”.

Sem abrir mão da leitura da imensa fortuna crítica de Machado, João Cezar de Castro Rocha propõe aqui uma abordagem que decerto ocupará lugar de destaque nos debates atuais e vindouros. Ao leitor, cabe apenas desfrutar do prazer proporcionado por um ensaio que alia a competência teórico-crítica ao refinamento de estilo.

Evando Nascimento

 

João Cezar de Castro Rocha é professor de literatura comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Realizou seus estudos de pós-graduação no Brasil (Uerj), nos Estados Unidos (Universidade de Stanford) e na Alemanha (Alexander von Humboldt-Stiftung/Freie Universität Berlin). Ocupou Cátedras Honorárias no México e nos Estados Unidos, além de ter sido pesquisador e professor visitante em universidades como Oxford, Cambridge, Yale, Princeton, Freiburg, entre outras. É autor de seis livros e organizador de títulos, entre eles Crítica literária: Em busca do tempo perdido?; Literatura e cordialidade; À roda de Machado de Assis (org.); Contos de Machado de Assis (org.) e ¿Culturas shakespearianas? Teoría mimética y América Latina.

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Literatura e animalidade - Maria Esther Maciel

 


10. Maria Esther Maciel. Literatura e animalidade.

 

Este livro de Maria Esther Maciel constitui o primeiro trabalho de fôlego publicado no Brasil sobre um tema fundamental para o século XXI: a relação entre literatura e animalidade. Não se trata mais, em absoluto, de dar continuidade a estudos comparativos clássicos, os quais tendiam a ver os animais nas ficções como símbolo de algo que os ultrapassava. Nesse sentido, a maior parte das fábulas tecia alegorias do comportamento humano, muitas vezes baseadas em estereótipos acerca dos bichos.

A abordagem se fundamenta em trabalhos que renovaram e ampliaram o horizonte da questão animal na atualidade. Assim, tendo a referência primacial de Michel de Montaigne, pensadores e estudiosos como Jacques Derrida, Gilles Deleuze, Giorgio Agamben, Randy Malamud e Elisabeth de Fontainay, entre outros, fornecem instrumentos para re-ver essas alteridades que nos cercam e que os humanos se acostumaram a destratar e a servilizar ao longo de sua complexa história.

Textos de ficcionistas e poetas como Franz Kafka, Jorge Luis Borges, J. M. Coetzee, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Murilo Mendes, Carlos Drummond e Jacques Roubaud são argutamente analisados e interpretados com o objetivo de expor um olhar diferencial sobre esses outros que nos cercam. O refinamento característico dos ensaios de Maria Esther Maciel apenas reforça o prazer de mergulhar no universo de uma poética animal com novos olhos.

Um dos pontos mais relevantes para inverter e deslocar o humanismo tradicional é começar a reconhecer a animalidade do próprio humano. Pois foi essa animalidade por assim dizer recalcada que, entre outros fatores, ajudou a dar plena autoridade ao Homem para reinar sobre os viventes em geral. Segundo Maciel, é tarefa fundamental dos escritores no mundo atual “repensar a questão dos animais sob o peso de uma realidade marcada por grandes catástrofes ambientais, extinção de inúmeras espécies, experiências biotecnológicas, crescimento acelerado das granjas e fazendas industriais, e à luz das reflexões contemporâneas sobre a questão dos animais em diversos campos do conhecimento”.

Este belíssimo volume se encerra com uma importante entrevista do especialista francês Dominique Lestel concedida à autora.

Evando Nascimento

 

Maria Esther Maciel é professora titular de Teoria da Literatura e Literatura Comparada na Faculdade de Letras da UFMG. É também escritora e pesquisadora do CNPq. Autora, entre outros, dos livros: As vertigens da lucidez: poesia e crítica de Octavio Paz (1995), Voo transverso: poesia e modernidade (1999), A memória das coisas: ensaios de literatura, cinema e artes plásticas (2004), O livro de Zenóbia (ficção, 2004), O livro dos nomes (ficção, 2008), As ironias da ordem: coleções, inventários e enciclopédias ficcionais (2010), Pensar/escrever o animal: ensaios de zoopoética e biopolítica (org. 2011) e A vida ao redor (crônicas, 2014).

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