TEXTOS CRÍTICOS - CANTOS PROFANOS
Resenha de João Cezar de Castro Rocha, no jornal O Globo

 

A VOZ SINGULAR E A LITERATURA PENSANTE DE EVANDO NASCIMENTO EM "CANTOS PROFANOS"
Autor consolida sua dicção única no cenário da literatura brasileira contemporânea

POR JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA*

O GLOBO, PROSA & VERSO, 27/12/2014 6:40

RIO - Acompanhar a literatura brasileira contemporânea com olhos livres permite identificar o surgimento de projetos inovadores e de grande interesse. É o caso de Evando Nascimento: “Cantos profanos” confirma a importância e singularidade de sua dicção. No fundo, a expressão usada por ele para caracterizar a obra de Clarice Lispector — literatura pensante — é a mais perfeita tradução de sua escrita. Contudo, aqui, todo cuidado é pouco. Não se trata de supor um discurso filosofante, às voltas com um conteúdo pretensamente elevado ou hermético.


Muito pelo contrário, Evando torna a literatura pensante um exercício específico de imaginação, desdobrado num convite para que o leitor crie seus mundos. Ressalto, então, a pluralidade do gesto, que inclui engenhosas provocações à filosofia, o prazer de narrar situações surpreendentes, além de uma apropriação constante de elementos tanto da tradição quanto da cultura pop.

A epígrafe do livro, aliás, cifra essa potência múltipla, a marca-d’água da literatura de Evando: “Decerto caberia sempre aos leitores inventarem seu próprio livro (...). Em contrapartida, caberia ao livro, com alguma sorte, inventar seus leitores (...).” A ficção se encontraria entre os dois movimentos de invenção.

De fato, a estrutura do livro arma um jogo de xadrez. Sobretudo, as peças brancas pertencem ao leitor, pois, numa inversão deliberada, a ele cabe o lance inicial nesse tríptico de palavras.

A primeira parte se denomina “Cantos” e alinhava uma série de situações-limite, nas quais uma história canônica ou um evento cotidiano são transformados por uma escrita que articula perguntas sem resposta.

“Babel revisitada” é uma obra-prima. Eis sua premissa: a inusitada tarefa — “Inventaram então de edificar a Torre infinita” — dispensa o desejo de rivalizar com “Deus”, evocando antes uma estrutura puramente humana, como, por exemplo, a malograda torre espiralada de Vladimir Tatlin. Babel volta a ruir, não por punição divina, mas por erro de cálculo de origem malthusiana: dada a multiplicação da espécie, “a parte da torre-mastro já construída não suportou o peso de tanto povo”.

“Altamente confidencial” é uma pequena joia. Um carteiro com nome de anjo, Gabriel Arcanjo, afinal, trata-se literalmente de um mensageiro, redige um e-mail, descrevendo o paradoxo de sua vocação constrangida: “Leio o que me cai nas mãos, livros, revistas, jornais, panfletos. Tudo menos o conteúdo dos envelopes que entrego, só o sobrescrito. Por isso sou leitor frustrado”. E, como recorre ao correio eletrônico, muito em breve um carteiro desempregado.

A segunda parte, “Profanações”, reúne um conjunto de transgressões que vira lugares-comuns pelo avesso. “Demo” é um monólogo extraordinário — atenção, encenadores: trata-se de texto pronto para o palco! —, no qual o “Obscuro” esclarece, e o faz com impecável lógica, que “o Mal é, portanto, o verdadeiro Bem”. O leitor termina o conto convencido. Ainda mais: desejoso de habitar essa casa muito engraçada, cuja boa nova encerra o texto: “Proclamo o Novo Evangelho, capítulo nulo, versículo zero”. “Demo” ombreia, em inventividade e linguagem, com seu precursor, “A igreja do diabo”, de Machado de Assis.

“Noturno (pequena fantasia musical)” ata as pontas da ficção e da ensaística de Evando. O conto tematiza um encontro único: “Faz meia hora que nos miramos, quase indiferentes. Que saberá de mim, que saberei jamais dela?” No longo intervalo, dois olhares se cruzam: em posição de igualdade, ave e homem se medem. Melhor: iguais porque intuem que a diferença presente remete a circunstância própria. Como Guimarães Rosa, Evando reescreve Protágoras: o vivente é a medida de todas as coisas; logo, também dos homens. A ficção de Evando inaugura uma ponte com o perspectivismo, tal como teorizado por Eduardo Viveiros de Castro.

O autor de “Retrato desnatural” propôs uma hipótese capaz de renovar a antropofagia oswaldiana: em lugar de devorar o outro, por que não comer junto com ele? Ou, pelo menos, adotar a dieta prescrita em “Muito prazer,”; autêntica abertura ao infinito precisamente porque o círculo se fecha: “tal é a lei do universo, engolir e ser engolido, em prol da comilança absoluta”.

A última seção, “Os vestígios”, apresenta uma série de “estudos” — entenda-se o termo no sentido empregado nas artes plásticas. O terceiro, “Reflexo (reverso)”, sintetiza com engenho o perspectivismo da ficção de Evando, isto é, o desejo de escrever para deixar de ser Evando, inventando-se outros tantos: “Cansei de dizer Espelho meu, agora serei para todo o sempre espelho seu”.

“Cantos profanos”, portanto, é um convite: espero que o leitor siga a dica, descobrindo-se inumeravelmente trezentos-e-cinquenta. É bem isso: o autor de “Cantos do mundo” afirma sua força através de uma prosa que se desdobra em desconcertantes experiências de pensamento, formuladas numa linguagem cirúrgica, cuja fatura distingue seu autor no universo da literatura brasileira contemporânea.

*João Cezar de Castro Rocha é professor de literatura da Uerj e autor de “Exercícios críticos: Leituras do contemporâneo”

"Cantos Profanos"

Evando Nascimento - Selo Biblioteca Azul (Ed. Globo) 152 págs., R$ 34,90
http://oglobo.globo.com/cultura/livros/a-voz-singular-a-literatura-pensante-de-evando-nascimento-em-cantos-profanos-14911305#ixzz3N5qwrrfe

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Artigo de João Cezar de Castro Rocha, no jornal Rascunho

 

A FICÇÃO DE EVANDO NASCIMENTO – JORNAL RASCUNHO

POR JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA*

Ilustração: Carolina Vigna

Ilustração: Carolina Vigna

Desnaturalizar

Acompanhar a literatura brasileira contemporânea com olhos livres permite identificar o surgimento de projetos inovadores e de grande interesse.

É o caso de Evando Nascimento, que terminou de publicar seu terceiro livro como ficcionista.

Neste artigo, por isso mesmo, proponho uma leitura de sua obra em progresso, destacando a importância de Cantos profanos, cujos contos e textos levam adiante experiências e exercícios dos dois primeiros livros.

Ensaísta reconhecido, um dos mais criativos intérpretes da obra de Jacques Derrida, Evando lançou em 2008 Retrato desnatural (diários — 2004 a 2007). Ficção.

O título, em si mesmo, sugere o princípio motor de sua escrita.

Vejamos.

A simples ideia de Retrato desnatural promete um curto-circuito.

Ora, num sentido prosaico, o retrato deveria manter com o retratado uma relação, por assim dizer, própria — muito embora tal propriedade possa recorrer à desproporção e à deformação metódicas, como ocorre nas telas de Francis Bacon. Aliás, o diálogo com as artes plásticas é um elemento-chave na literatura de Evando. No fundo, ele radicaliza o procedimento de Bacon, pois, em boa medida, a escrita de Retrato desnatural estrategicamente descola o gênero retrato do compromisso com qualquer forma de verossimilhança. Pelo avesso, o retrato mais fiel seria antes um mosaico de máscaras, compondo:

poéticas do quase
cacos de idiomas
pútridos quasares
na cripta angelical

pedaços da vida
retratos da arte[1]

A arte, portanto, é o território de uma desnaturalização em série: da linguagem, do mundo, do sujeito. Tal concepção subjaz à literatura de Evando, cujo eixo articulador desenvolve uma “estética da emulação”, como ele definiu em entrevista recente à revista Fórum de Literatura.

Explico.

Melhor: transcrevo fragmentos do livro:

promissória: em seus primeiros exercícios de emulação, picasso copiava no caderno-estúdio escolar a assinatura dos caricaturistas que admirava; outros acusariam falsificação. assim, contam, fez fortuna.
(…)

o óbvio (o ovo): sem exceção, todos os livros verdadeiramente lidos foram reescritos — do centro às margens.
partida: na literatura, vida, ficção ou ensaio, só conta o reescritor. escrever é reescrever desmesuradamente. ou ainda, noutro plano, transcrever, escrita sobre escrita, o reescritor é também transcritor.
(146)

É isso.

Tudo dito.

Assim como o retrato não implica aderência ao rosto porém adesão ao traço, o autor se encontra ao se descobrir outros na apropriação sistemática da tradição. Desse modo, Evando anuncia o que provavelmente será a marca-d’água de sua escrita. Isto é, mais do que o desenho preciso de uma prosa que pensa ou a retomada decidida da prosa poética — embora ambas as pulsões estejam presentes no projeto de Evando —, o autor de Cantos do mundo parece propor um perspectivismo antropológico radical, cujo sujeito se afirma precisamente por meio de um esforço bem refletido de dessubjetivação.

(Afinal, para um autor-leitor, o eu é sempre muito pouco — claro, é um outro. Ou: muitos outros.)

Cantar o mundo

O segundo livro do ficcionista, Cantos do mundo, saiu em 2012. Nele, Evando abraçou o exercício narrativo inerente ao conto. O escritor ampliou as cores de sua paleta, acrescentando à frase epigramática e à dicção ensaística de Retrato desnatural — forças presentes também nos poemas da primeira seção do livro — o domínio do relato curto.

Contudo, sem abdicar da vocação pensante de sua prosa.

Um conto em particular permite vislumbrar o elo entre os dois primeiros títulos — O dia em que Walter Benjamin daria aulas na USP.

Como se sabe, no início da década de 1930, criou-se uma comissão responsável por convidar sábios e especialistas europeus para formar o corpo docente da Universidade de São Paulo, criada em 1934. A história é muito bem conhecida e somente a menciono porque o pesquisador alemão Karlheinz Barck descobriu uma surpreendente correspondência entre Erich Auerbach e Walter Benjamin, na qual o autor de Mimesis revelava que havia pensado em Benjamin para uma possível temporada brasileira como professor de literatura alemã na USP.

Evando imagina uma engenhosa alternativa contrafactual e reescreve o episódio. A oferta bem poderia ter sido irrecusável. Afinal, o cargo de professor na Universidade de São Paulo tornaria irrelevante o insucesso acadêmico de A origem do drama barroco alemão — texto reprovado na austera academia alemã. No êxodo provocado pelas perseguições nazistas, professores de grande prestígio viajavam invariavelmente para os Estados Unidos; por exemplo, foi o caso de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, amigos de Benjamin. No entanto, intelectuais que não possuíam credenciais similares aventuravam-se na América do Sul.

Pelo menos é o que, na ficção do brasileiro, Benjamin confidenciou a Auerbach:

Caríssimo Erich,

Eis-me de malas prontas para viajar ao Brasil. Aquela possibilidade de lecionar na Universidade de São Paulo, aventada em 1935, finalmente se concretizou num convite oficial.
(…)

O fato de ser uma Universidade muito jovem traz grande alento, assim não implicarão por não ter a Tese de Livre-Docência — quem sabe não refaço um pouco o trabalho, encomendo uma tradução e obtenho o título lá mesmo? Sei que a ansiedade está me deixando um tanto afobado. Vamos deixar as coisas se desenrolarem, sem inútil antecipação. Contudo, se um dia dominar o idioma, não sei se será possível filosofar em português, nunca ouvi falar em filósofo brasileiro. Decerto haverá. Talvez.[2]

Por que não?

Vilém Flusser soube apreciar a força da filosofia de Vicente Ferreira da Silva e a originalidade da literatura de Guimarães Rosa.

Roger Bastide descobriu a paisagem na prosa machadiana e, como poucos, entendeu a arte e o cotidiano brasileiros.

Possibilidade fascinante: cruzando a Ipiranga e a Avenida São João, Walter Benjamin intuiria a tradução mais completa de sua nova circunstância devorando Macunaíma e o Manifesto antropófago.

Os cantos de Evando suscitam tais imagens — autênticas experiências de pensamento.

Um tríptico?

Venho, agora, ao título recém-lançado.

Cantos profanos confirma a importância e a singularidade da dicção de Evando. No fundo, a expressão usada por ele para definir a obra de Clarice Lispector — literatura pensante — caracteriza muito bem seu projeto.

Porém, aqui, todo cuidado é pouco.

Não se trata de supor um discurso filosofante, às voltas com um conteúdo pretensamente elevado ou hermético.

Muito pelo contrário, Evando torna a literatura pensante um exercício específico de imaginação, desdobrado num convite para que o leitor crie seus mundos. Ressalto, então, a pluralidade do gesto, que inclui engenhosas provocações à filosofia, o prazer de narrar situações surpreendentes do dia a dia, além de uma apropriação constante e irreverente de elementos tanto da tradição quanto da cultura pop.

(Isso mesmo que você imaginou: os três títulos recordam um tríptico, cujo painel central estamparia Cantos profanos: forma plástica de cruzamento dos exercícios e experiências de Retrato desnatural e Cantos do mundo.)

A epígrafe do livro cifra essa potência:

Decerto caberia sempre aos leitores inventarem seu próprio livro (…).
Em contrapartida, caberia ao livro, com alguma sorte, inventar seus leitores (…).
A ficção se encontraria entre os dois movimentos de invenção.

De fato, a estrutura do livro arma um jogo de xadrez. Sobretudo, as peças brancas pertencem ao leitor, pois, numa inversão deliberada, a ele cabe o lance inicial nesse tríptico de palavras.

A primeira parte se denomina Cantos e alinhava uma série de situações-limite, nas quais uma história canônica ou um evento cotidiano são transformados por uma escrita que articula perguntas sem resposta.

Babel revisitada é uma obra-prima. Eis sua premissa: a inusitada tarefa — “Inventaram então de edificar a Torre infinita”[3] — dispensa o desejo de rivalizar com “Deus”, evocando antes uma estrutura puramente humana, como, por exemplo, a malograda torre espiralada de Vladimir Tatlin. Babel volta a ruir, não por punição divina, mas por erro de cálculo de origem malthusiana: dada a multiplicação da espécie, “a parte da torre-mastro já construída não suportou o peso e tanto povo” (22).

Altamente confidencial é uma pequena joia. Um carteiro com nome de anjo, Gabriel Arcanjo, afinal, trata-se literalmente de um mensageiro, redige um e-mail, descrevendo o paradoxo de sua vocação constrangida:

Leio o que me cai nas mãos, livros, revistas, jornais, panfletos. Tudo menos o conteúdo dos envelopes que entrego, só o sobrescrito. Por isso sou leitor frustrado (45).

(E, como recorre ao correio eletrônico, muito em breve um carteiro desempregado.)

A segunda parte, Profanações, reúne um conjunto de transgressões que vira lugares-comuns pelo avesso.

Demo é um monólogo extraordinário — atenção, encenadores: trata-se de texto pronto para o palco! —, no qual o “Obscuro” esclarece, e o faz com impecável lógica, que “o Mal é, portanto, o verdadeiro Bem” (66). O leitor termina o conto devidamente convencido. Ainda mais: desejoso de habitar essa casa intertextual muito engraçada, cuja boa nova encerra o texto: “Proclamo o Novo Evangelho, capítulo nulo, versículo zero” (67). Demo ombreia, em inventividade e linguagem, com seu precursor, A igreja do diabo, de Machado de Assis.

Noturno (pequena fantasia musical) ata as pontas da ficção e da ensaística de Evando. O conto tematiza um encontro único: “Faz meia hora que nos miramos, quase indiferentes. Que saberá de mim, que saberei jamais dela?” (81). No longo intervalo, dois olhares se cruzam: em posição de igualdade, ave e homem se medem. Melhor: iguais porque intuem que a diferença presente remete a circunstância originária comum. Evando reescreve Protágoras: o vivente é a medida de todas as coisas; logo, também dos homens. A ficção de Evando inaugura uma ponte com o perspectivismo antropológico, tal como teorizado por Eduardo Viveiros de Castro.

O autor de Retrato desnatural propôs uma hipótese capaz de renovar a antropofagia oswaldiana: em lugar de devorar o outro, por que não comer junto com ele? Ou, pelo menos, adotar a dieta prescrita em Muito prazer; autêntica passagem ao infinito precisamente porque o círculo se fecha enquanto as bocas se abrem: “tal é a lei do universo, engolir e ser engolido, em prol da comilança absoluta” (80).

A última seção, Os vestígios, apresenta uma série de “estudos” — entenda-se o termo no sentido empregado nas artes plásticas; além disso, tal seção ecoa e refina a noção de Restos, última parte de Retrato desnatural. O terceiro vestígio, Reflexo (reverso), sintetiza com engenho o perspectivismo de sua ficção — o desejo de escrever para deixar de ser Evando, inventando-se outros tantos: “Cansei de dizer Espelho meu, agora serei para todo o sempre espelho seu” (110).

Cantos profanos é um convite: espero que o leitor siga a dica, descobrindo-se inumeravelmente trezentos-e-cinquenta.

Evando Nascimento afirma sua força através de uma prosa que se desdobra em instigantes experiências de pensamento e desconcertantes exercícios de dessubjetivação, formulados numa linguagem cirúrgica, cuja fatura distingue seu autor no universo da literatura brasileira contemporânea.

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[1] Evando Nascimento. Retrato desnatural (diários – 2004 a 2007). Ficção. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 55, grifos do autor. Nas próximas citações, mencionarei apenas o número da página.
[2] Evando Nascimento. “O dia em que Walter Benjamin daria aulas na USP”. Cantos do mundo. (Contos). Rio de Janeiro: Record, 2011, p. 155 e 162.
[3] Evando Nascimento. “Babel revisitada”. Cantos profanos. São Paulo: Editora Globo, 2014, p. 21. Nas próximas citações, mencionarei apenas o número da página.

*João Cezar de Castro Rocha é professor de literatura da Uerj e autor de “Exercícios críticos: Leituras do contemporâneo”

http://rascunho.gazetadopovo.com.br/a-ficcao-de-evando-nascimento/

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Resenha de Mariana Ianelli, no jornal Valor

 

26/09/2014 às 05h00

A "FICÇÃO VITAL" DE EVANDO NASCIMENTO

POR MARIANA IANELLI | PARA O JORNAL VALOR

Evando Nascimento
Nascimento: em "Cantos Profanos", seus jogos de pensamento, à luz da razão poética, produzem fogo na síntese de um "real surreal"

Anos atrás, George Steiner propôs para a literatura do século XXI um desafio: a possibilidade de um ateísmo capaz de substituir "o vento morno que sopra sobre a superfície de nosso pós-modernismo", vento morno que Steiner deduz de um "agnosticismo inócuo". Inspirado nessa possibilidade, o crítico emenda à sua hipótese uma provocação: supondo que um ateísmo se fortaleça como pensamento e forma articulada entre escritores e artistas, "suas obras conseguirão rivalizar com as dimensões, os transfiguradores poderes de persuasão que já conhecemos?" Eis um desafio à altura de "Cantos Profanos", novo livro do baiano Evando Nascimento.

Familiar aos aspectos hoje recorrentes na literatura, como o hibridismo de gêneros, a heteronímia e, virtude do século, o sal da ironia, Evando Nascimento consegue mais do que uma esplêndida miscelânea contemporânea em seus textos. Como se faz com o sol no foco de uma lupa, seus jogos de pensamento, à luz da razão poética, produzem fogo na síntese de um "real surreal". Esse fogo, que vem de um sol negro, em "Cantos Profanos" reflete seu esplendor de ébano nos quatro cantos do mundo.

Um Édipo sem culpa expõe sua versão lúbrica dos fatos; Gabriel Arcanjo, um carteiro da ECT com poder de conectar ou sabotar destinos, presta seu depoimento sigiloso num e-mail; o Demônio em ficção se apresenta, réu confesso, e por escrito se desmistifica, ele próprio uma fábula terrena, "fruto da imaginação humana numa caixinha de Pandora"; um homem, às vésperas do ano 2150, derradeiro sobrevivente de uma das colônias de Marte, envia sua mensagem na garrafa, para um eventual navegante intergaláctico, com notícias de um planeta Terra pós-apocalipse, sem Juízo Final. Nessa fábula do futuro, já à altura da Quarta Guerra Mundial, o Oriente Médio praticamente desapareceu e dos Estados Unidos só restaram poucas ruínas. Em todas essas ficções do mundo, Deus aparece como a maior utopia inventada pelo homem.

O profano aí consiste num colapso da distinção entre bem e mal, fazendo-os coincidir como faces espelhadas. É um jogo de pensamento que fabula neutralizar sinais contrários, e o zero absurdo resultante desse jogo corresponde a uma "ficção vital", essa que a todo momento confunde o falso e o verdadeiro, o sacro e o não sacro, vida e nada. Como a "verdade subterrânea" numa falsificação de um quadro de Rembrandt ("Atestados"), o autor revela a chave de seu jogo jogando: "Desejaria apreender a loucura da razão e depreender a razão da loucura". Ou ainda: "Na insânia, os antípodas se encontram". Daí a quimera desses cantos profanos, cujas partes verdadeiras, feitas de "camadas insuspeitas do real", entranhadas no mundo, compõem um todo fantástico. Exatamente a "razão da loucura" dessa quimera é sua verossimilhança.

Capa - Cantos Profanos

Vem dessa lógica poética a vocação de fragmento de muitas passagens do livro: "A quem me dirijo, não sei, talvez ao Nada, só que por enquanto essa entidade vacante para mim tem a cara da Vida"; "Toda mãe não é berçário de luzes que ainda hão de brilhar? Origâmico multiverso"; "Trombeteiam os apocalípticos, em algazarra, que o fim finalmente começou. Ou acabou"; "O silêncio talvez não passe de um ruído de fundo, quando tudo o mais espantosamente se cala". Como esses fragmentos destacáveis, outros há, incorporados, como vozes confundidas, numa babel que não é apenas assunto senão também substância do texto, a exemplo dos versos finais do poema "Amor à Primeira Vista", de Wislawa Szymborska, camuflados no corpo de uma carta ficcional ("Elos").

Evando Nascimento cumpre, assim, com novos cantos (lembrando que em 2011 o autor publicou "Cantos do Mundo"), o próprio aforismo de que "importa não mais a Grande Obra, mas as obras intensas, capazes de levar assistência a outras esferas, com os pés no chão, como igualmente por vezes acontece num transcendental cinema". Num consórcio de intensidade e geometria, vê-se que o poeta, denominador comum entre jogo e fogo, mantém sempre viva a força persuasiva de suas fabulações.

"Cantos Profanos"

Evando Nascimento Biblioteca Azul 152 págs., R$ 34,90 / AA

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Resenha de João Paulo da Cunha, no jornal Estado de Minas

 

O MAL QUE HABITA O MUNDO - Jornal Estado de Minas - Pensar

Livro de contos de Evando Nascimento, Cantos profanos dá sequência ao projeto literário do ensaísta especializado em literatura e filosofia

POR JOÃO PAULO DA CUNHA

Publicação: 02/08/2014 00:13

Ilustração - Joshua Lott/Reuters

Joshua Lott/Reuters

Evando Nascimento faz parte de um grupo reduzido de ensaístas e estudiosos de literatura que também exercita a ficção de forma destacada. O autor de estudo sobre a obra de Clarice Lispector (Clarice Lispector: uma literatura pensante) é também um dos mais reconhecidos especialistas brasileiros na obra do pensador Jacques Derrida, de quem foi aluno em Paris. O escritor de ficção, por seu turno, é ao mesmo tempo um desdobramento do acadêmico e seu antípoda.

Assim como em Silviano Santiago, a obra ficcional de Evando Nascimento deixa entrever a erudição do professor, mas em nenhum momento é seu ponto de partida ou motivo de criação – nem mesmo para negá-lo. O escritor, íntegro, pede para ser avaliado por sua obra, não pela formação; pela criação, não pela teoria.

E o novo livro de ficção do autor, Cantos profanos (que se segue a Cantos do mundo e Retrato desnatural) dá ainda mais consistência ao projeto autoral de Evando. O escritor domina o conto com força estilística, sobretudo pela capacidade de contenção, que não perde em momento algum a força. Como um domador de raios, são sempre momentos intensos, captados numa prosa enxuta, mas capaz de se servir de todos os recursos da linguagem e de suas possíveis vozes. Cada conto, de certa forma, inaugura um modo narrativo próprio, adequado ao que está sendo apresentado.

O nome do livro é revelador. Todas as narrativas tangenciam motivos subterrâneos, extremos, violentos, excessivos, além das convenções. A realidade profanada ganha em cada história uma expressão quase limítrofe, alternando a primeira pessoa (mais presente), o documento (carta e confissão) e o narrador onisciente; por vezes em meio ao espanto, outras com assustadora naturalidade. O extraordinário em Evando Nascimento, contudo, parece sempre brotar de uma realidade que a tudo assiste de forma impassível. Mais que social ou político, como em Rubem Fonseca, por exemplo, o mal para o escritor não precisa de justificativa para invadir a vida dos personagens. Ele existe.

Há de tudo no cenário profano das histórias: suicídio, pedofilia, sexo, violência, vingança, humilhação. Dividido em três partes, as histórias de Cantos profanos parecem se distribuir em seus propósitos. Em primeiro lugar os cantos; seguidos das profanações; e sintetizados numa narrativa ao mesmo tempo delirante e sistemática, “Os vestígios”, que encerra o volume. Como muitas histórias carregam intertextos e diálogos eruditos habilmente despistados, o autor completa o livro com uma “Tábua gratulatória”, na qual identifica suas dívidas.

A narrativa em si pode passar por uma mera provocação para se aproximar de determinados temas ou formas de contar a história. Mas é no habilíssimo jogo de mesclar os dois universos – o que dizer e como dizer –, que os contos de Evando se tornam exemplares e, em alguns momentos, de impressionante acabamento. Além disso, sempre muito perto do assustador – que se revela natural algumas vezes –, o contista parece ir alargando sua compreensão da realidade por meio de exemplos que sintetizam certa disposição contemporânea para a angústia e ansiedade em compreender o mundo à volta. O mal-estar das profanações.

No limite No primeiro conto, “Tentação do santo”, o leitor se depara com a confissão de um estupro, em que a violência está expressa menos no comportamento hediondo que na linguagem que naturaliza o crime. Em “Nada como um dia”, uma intelectual vive a rotina de sua distinção autoconferida até ser atropelada pelo desejo e pelo sexo. O conto “Terra à vista” é um experimento em ficção científica que brota do filme Gravidade, no qual o narrador tenta fazer um relato isento da experiência de abandono e solidão que vive em Marte, no ano 2150.

Cada história de Evando traz uma situação-limite, que exige algum tipo de solução. Por vezes, é o desfecho forte como um soco, como em “O banquete”, que escorrega da complacência inicial para o brutalismo do arremate; outras, a pura entrega aos prazeres, mas sem o peso da libertinagem, quase como um destino que atravessa a vida de um taxista, que gosta de homens e mulheres, e emenda sua narrativa em parágrafos que se encaixam como blocos estanques e sem historicidade. Como passageiros que embarcam em sua história.

O sentido religioso também está presente, seja nos temas – como o pecado e a culpa – seja nas formas de expressão, por vezes fabulares, confessionais e em alguns momentos epifânicas (como em “Noturno”), com uso ainda de aforismos e fragmentos que emulam a literatura sapiencial. Não falta nem mesmo um depoimento em primeira pessoa do próprio diabo em “Demo”.

O texto que encerra o livro, “Os vestígios”, explicita a marca mais intelectual e erudita do autor, com constantes referências à arte e ao saber, que vão de Shakespeare e Van Gogh ao filme O som ao redor e aos irmãos Taviani. Mas cuidado: são muitas vezes pistas falsas.

Evando Nascimento marca sua posição na prosa de invenção atual. Assim como suas histórias procuram sempre extrair o extraordinário do ordinário, sua arte mergulha no mundo dos sentimentos para figurar algo que mereça um canto, ainda que profano. Afinal, é a matéria de que somos feitos.

Cantos profanos
• De Evando Nascimento
• Biblioteca Azul
• 152 páginas, R$ 34,90

http://divirta-se.uai.com.br/app/noticia/pensar/2014/08/02/noticia_pensar,157931/o-mal-que-habita-o-mundo.shtml

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Comentário-avaliação de Caio Liudvik, no Guia da Folha de São Paulo

 

GUIA DA FOLHA DE S. PAULO

http://edicaodigital.folha.com.br/home.aspx?cod=JOJMOPIOCRQ0

Caio Liudvik:

EVANDO NASCIMENTO, CANTOS PROFANOS

Ex-aluno de Jacques Derrida, Nascimento exige dos leitores o que oferece a cada página: audácia de pensar fora da caixa. Sem hermetismos, o ensaísta conjuga, nestes contos, densidade filosófica e maestria narrativa na “desconstrução” irônica de velhas morais e metafísicas que, antes do niilismo, podiam esconder de si mesmo o homem, o fundo intratável do desejo, das misérias, da capacidade de fazer da Terra (à beira da catástrofe explorada num em conto futurista) o que as mitologias projetavam no inferno.

O antídoto para a devastação existencial que nos ameaça talvez esteja no aspecto libertador das “profanações” de que falam Walter Benjamin e Agamben, ou no elogio da “razão sensível” (possível alusão a Michel Maffesoli) que o próprio príncipe das trevas, aqui sem intermediários, como o homem no confessionário do conto de abertura, profere e sugere –em instante de generosidade paradoxal- ser a rota de saída do caos, em perturbador autorretrato diabólico.

AVALIAÇÃO ÓTIMO

http://unzuhause77.blogspot.com.br/2014/08/resenhas-para-folha-30082014.html

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Comentário de Álvaro Costa e Silva, na Ilustríssima da Folha de São Paulo

 

Diário do Rio

O MAPA DA CULTURA

Desafios cariocas

Calor, praias cheias e os relatos dos taxistas

ALVARO COSTA E SILVA

[...]

SEXO ORAL

Em seu segundo e excelente livro de contos, "Cantos Profanos" [Biblioteca Azul, 152 págs., R$34,90], Evando Nascimento flagra as atividades de um personagem velho conhecido da cidade: o taxista conquistador que, não satisfeito, narra com detalhes suas transas. Ao pobre passageiro, resta ouvi-las, ou descer do carro.

O relato "Táxi" é preciso ao mostrar a frustração do motorista: "(...) vontade mesmo tenho de escrever um romance contando minhas aventuras, desventuras, muito além da imaginação".
Cuidado com o tipo, leitor, ainda mais sabendo que o tempo perdido no Rio em engarrafamentos triplicou nos últimos dez anos.
[...]

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Resenha publicada no jornal Gazeta do Oeste

 

Produção Literária

publicado por Webmaster em 3 de agosto de 2014 às 00:00 | editado em 01/08/2014 às 19:14

CANTOS PROFANOS

Desde que estreou na ficção, em 2008, Evando Nascimento tem se destacado por duas características raras na produção literária brasileira. Uma delas é o estilo narrativo original, que explora a exuberância da linguagem sem perder de vista o rigor e a concisão. E a outra é a força inventiva com a qual transforma a algaravia e as contradições do cotidiano em matéria-prima para histórias surpreendentes. Em Cantos profanos, seu terceiro livro ficcional, essas características aparecem em contos breves, fragmentos e microensaios. Representam, assim, outra marca do autor: seu jeito de desafiar os gêneros, explorando diferentes formações discursivas.

Na obra, Evando vasculha de forma sui generis algumas das zonas sombrias do contemporâneo. Em suas páginas, o leitor poderá acompanhar as peripécias de um taxista libertino, os instantes finais de um suicida, as diatribes de um narrador exausto da hiperinformação, o sexo fortuito de uma pesquisadora-palestrante. Canibalismo, incesto, violência urbana, luta de classes – temas provocativos aparecem sob ângulos muitas vezes inusitados, atribuindo vida a situações das quais, em geral, mesmo a literatura tenta se esquivar.

Mas Cantos profanos também exibe tramas de vigor lírico. É o caso de “Altamente confidencial”, conto que reproduz o e-mail onde um carteiro faz uma ode à profissão e à literatura. Ou de “Noturno”, cujo narrador tem uma epifania ante uma ave marinha, em noite de carnaval. Em outros textos, Evando ultrapassa os limites do cotidiano rumo a exercícios de intensa fabulação, como em “Terra à vista”, que retrata a angústia do derradeiro sobrevivente de um módulo espacial ancorado em Marte, às vésperas do ano 2150.

Não por acaso, é a primeira pessoa que prevalece nas narrativas deste livro. São testemunhos de nossos tempos, vozes que reverberam as angústias e contradições contemporâneas. Juntos, desenham um caleidoscópio perturbador. Mas que, ao mesmo tempo, não se esquiva da alegria. Porque as histórias presentes em Cantos profanos são também tramas de resistência, de encantamento, de sedução ante a vida e ante a linguagem, com tudo o que as duas possuem de perverso e, por isso mesmo, irresistível.

Na parte final do livro, Evando apresenta sua aguda verve de filósofo-cronista, com um rol de formas textuais que poderíamos chamar fragmentos, pequenas crônicas, aforismos, microensaios. Mas que parecem mais apropriadas se classificadas sob o título que as reúne: “Vestígios”. São, afinal, rastros de movimentos pelo mundo, reflexões que têm como mote temas tão diversos quanto o suicídio de Lady Macbeth e a opressão espacial que marca o filme O som ao redor.

Cantos profanos não se exime dos laços sanguíneos com seu antecessor, Cantos do mundo, um dos livros finalistas do Prêmio Portugal Telecom de 2012, na categoria conto/crônica. É uma obra que renova este que parece ser o compromisso de Evando: perscrutar a singularidade e o encantamento num mundo que parece, à primeira vista, cada vez mais uniforme.

O AUTOR

Evando Nascimento nasceu em Camacã – Bahia, em 8 de agosto de 1960. Escritor, ensaísta e professor universitário, é considerado um dos maiores intérpretes do pensamento de Jacques Derrida, de quem foi aluno na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Em 2007, realizou um pós-doutorado em filosofia na Universidade Livre de Berlim. Publicou vários livros, sendo dois de ficção: Cantos do mundo (finalista do Prêmio Portugal Telecom 2012), e Retrato desnatural (2008).

http://gazetadooeste.com.br/cantos-profanos/

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Artigo de W. B. Lemos, na revista Pessoa

 

CONTRACANTO OU ODE PARALELA

Retrato de Evando Nascimento, por W.B. Lemos

Escrito por W. B. Lemos em 28 de junho de 2015

http://www.revistapessoa.com/2015/06/contracanto-ou-ode-paralela/#

Evando Nascimento

I – A educação sentimental

Vibrem agora as primeiras notas da lembrança deste encontro-entrevista, com pauta dividida em duas audições, de um autor, cuja obra já dispõe de considerável reconhecimento crítico, com seus leitores. Leitores e, além disso, estudantes de literatura: graduandos, graduados, pós-graduados etc. Sendo assim, após a cantata a capella, soe este prelúdio dissonante para um figurado portrait de Evando Nascimento, o escritor – ficcionista e ensaísta – entrevisto.

Infância, adolescência e juventude algo solitárias, dedicadas à leitura intensa (“Machado de Assis, Érico Veríssimo, Dostoiévski, Jorge Amado, Drummond, Vinicius de Moraes, Clarice Lispector – literatura pensante –, Proust, Thomas Mann – A montanha mágica, fascínio absoluto”) e escrita ensimesmadas, sobre as quais nos informa um Evando leitor de si, em rememoração, e, agora, simultaneamente narrador.

Em sua fala inicial, breve retrospecto (auto)biográfico intelectual, destaca-se uma questão fundamental, e que diz respeito a vários dos presentes: quando e como o escritor se torna o que é?

Seria esse o momento e o modo do encontro marcado do escritor consigo mesmo. A obtenção da resposta a essa questão seria um dos pontos altos de um romance de formação. Ainda que inescrito, supomos vivido pelo autor à nossa frente. Antes vital e de difícil resolução quando experienciada, apenas a passagem de muito tempo possibilitou que semelhante pergunta pudesse ser retoricamente refeita e, ora, em nossa presença, respondida sem maiores dificuldades.

E a resposta está associada a uma questão adicional. Por que romper com o ineditismo da composição e solfejo solitários dos anos formativos e publicar? “É fundamental, do ponto de vista da comunicação humana, passar pela prova do outro. De fato, você só se torna escritor quando publica. Enquanto não publica, você é um pretenso escritor”, assinala o autor de retrato desnatural (2008).

II – A farmácia de Platão

2004. Diários. Início da escrita esparsa que originará o ficcional (auto)retrato do autor. Dosagens verbais aleatórias periódicas, recompondo-se em escritura não delimitada. É chegada a hora de orquestrar o arranjo da dicção que virá a público sob a forma de um livro sem gênero, fecundado para muito além de um projeto específico predefinido, mas não amorfo, livre fantasia verbal – polimórfica e polifônica. “De maneira caótica e sistemática, fragmentariamente”, nasceu (fez-se obra) o objeto desnatural, fármaco sem fórmula precisa, revela-nos, cúmplice, Nascimento.

Mesmo assim, a manipulação cuidadosa pode isolar alguns dos elementos constitutivos desse complexo composto (de 2004 a 2007), veneno-remédio, rico em poemas (em verso e prosa), bem dosado de contos, crônicas (narrativas curtas de fatos metamorfoseados), notas do cotidiano datadas (sem linearidade cronológica) falsa ou verdadeiramente (ou mesmo sem datas), dotado de comentários sobre vivências diversas (como as de fruição artística, cinematográficas por exemplo) e de múltiplas adições de epigramas, microensaios, registros de diálogos – em suma, experimental panaceia-emplasto resultante de arcanos escrupulosamente laborados, como o faria um herdeiro de Derrida.

No que diz respeito aos modos de administração e indicações posológicas, as recomendações e advertências são mínimas. Até então, desconhecidas circunstâncias contraindicativas. A prazerosa fruição dos efeitos do phármakon não está condicionada ao anterior contato com o conteúdo ou prévio consumo de nenhuma das substâncias que o constituem, sob quaisquer formas ou dosagens, muito menos à identificação desses componentes ou mesmo reconhecimento de suas fontes originárias, matriciais.

Relatos testemunhais comprobatórios da eficácia literária, metafórica e/ou metonímica do medicamento no tratamento dos males associados à merencória condição humana têm sido documentados. A ação é, conforme minha experiência de leitura, no mínimo, paliativa.

III – Discurso na seção de achados e perdidos

Evando em anedota confessional. A da revelação de um inusual e inadvertido furto. O de apenas dois versos finais de um poema da escritora polonesa Wisława Szymborska – percebidos e identificados em resenha escrita por uma atenta leitora, a poeta Mariana Ianelli. Estão, os versos, amorosamente amalgamados (inconscientemente incorporados) a “Elos”, conto de Cantos profanos (2014). Pedem-me releitura, o conto e a singular poesia a que ele, em diálogo quase subliminar, remete.

IV – O perfeito cozinheiro das almas deste mundo

Oswald de Andrade ainda pode ser uma espécie de admirado herói cultural para um escritor contemporâneo, “exuberante e irresponsável mestre anárquico”, como o nomeia Evando Nascimento.
Exercendo sobre o escritor influência determinante, direta – seja pela poesia ou pelos manifestos – ou intermediada pela vanguardista recepção crítico-teórica de Haroldo e Augusto de Campos, a herança oswaldiana – mais fundamentalmente a invenção e pensamento antropofágicos – tem sido, a intervalos, sempre revisitada.

A emulação se dá sob perspectivas, claro, cada vez mais críticas e frutíferas a cada novo enfrentamento, tanto na criação ficcional quanto na reflexão ensaística do autor de Cantos do mundo (2011), e será explorada em seu já anunciado próximo livro de ficção, assim como o foi nos dois anteriores, por exemplo, em contos como o extraordinariamente profético “Terra à vista” (Cantos profanos) e no tragicômico “E se comêssemos o piloto?” (Cantos do mundo).

V – Dublinesca

O cenário constituído pelo presente mercado editorial e pela mais recente “vida literária”; a ação e o jogo de interesses dos editores; o meio acadêmico; a atuação da crítica; as novas mídias, sobretudo digitais, veiculadoras do texto; as relações entre leitores, escritores e preferências de leitura atuais; o debate acerca de controversas concepções do que é tido por literário hoje, entre outros temas correlacionados, não poderiam deixar de ser alvos de animada discussão e inflamados comentários em um encontro de tantos entusiastas (entre os quais, vários professores) do que alguém talvez pudesse ainda chamar de verdadeira literatura. Ou, pelo menos, “uma literatura pensante”, como diria Evando, reutilizando a expressão com que designou, no título de um de seus recentes livros de ensaios, a obra de uma das mais desafiadoras escritoras da literatura brasileira (Clarice Lispector: uma literatura pensante, 2012).

O contista foi incisivo em sua avaliação desse complexo contexto. Não deixou dúvidas quanto ao que considera “literatura de qualidade”: “aquela que tem em si mesma vasto conhecimento do universo literário”. Desse modo, destacou e criticou com franqueza a propagação favorecedora do que é frívolo, medíocre e efêmero, mas facilmente vendável e consumível, por exemplo, a saber: best-sellers temáticos (como o filão dos livros de vampiro) e oportunistas, produzidos em escrita seriada e em larga escala; ou livros escritos por ghost-writers, encomendados por celebridades instantâneas, por sua vez, atendendo demandas de editoras mais que comerciais, para citar apenas dois de uma lista numerosa de males acentuados nos nossos tempos leitores.

O escritor desnudou, assim, o modo como parte da indústria, motivada exclusivamente pelo lucro, investe desmedidamente em escrita apenas como mercadoria, em detrimento do que, sem dúvida, pode ser considerado mais duradouro e fundamental, de um ponto de vista artístico exigente e criterioso, a exemplo de um novo livro de contos do escritor Sérgio Sant’Anna.

Como forma de resistir às consequências desses poderosos mecanismos e modismos, também a meu ver, funestos à literatura contemporânea, o autor falou do efetivo exercício de sua reflexão, escrita ou exposta em palestras e congressos, em defesa dos valores do que insiste em considerar como “obra literária” – tema de sua participação no XIV Congresso Internacional da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada), a se realizar de 29 junho a 3 julho próximo, na UFPA, em Belém.
Comentando essa sua forma de atuação, Evando falou ainda sobre o inusitado convite que recebeu, e aceitou, para futura participação em outro simpósio literário, dessa vez, na Universidad Católica de Valparaíso, no Chile. Por que inusitado? O tema da ementa do evento é “a literatura em desaparecimento”.

Não pude me impedir de ver o ficcionista como um personagem de Enrique Vila-Matas, que, hiperconsciente, teimosa e quixotescamente, lutasse contra a morte da literatura. Como um partidário do bom, do belo e do justo literários, feito o ex-editor Samuel Riba, de Dublinesca.

VI – Consistência

Em sua apaixonada defesa de valores literários, a fala e o posicionamento, além de artístico, ético de Evando Nascimento me fizeram lembrar Italo Calvino e suas Seis propostas para o próximo milênio. Proposições infelizmente não proferidas no célebre Charles Eliot Norton Poetry Lectures – ciclo anual de conferências da Universidade Harvard, de que participaram personalidades como Stravinsky, Borges, Eliot, Northrop Frye e Octavio Paz –, devido à morte do convidado, ocorrida poucos meses antes da realização das palestras no ano de 1985.

“Leveza”, “Rapidez”, “Exatidão”, “Visibilidade” e “Multiplicidade” foram e seriam cinco das preserváveis, e a serem continuamente preservadas, características essenciais do fazer literário consequente, segundo o autor de Se um viajante numa noite de inverno. Propriedades essas que possivelmente resguardariam – e desde então já o fizeram – a existência e, por muito mais tempo, possibilitarão a sobrevivência da melhor literatura do porvir.

Na contística de Evando, são patentes cada uma dessas cinco referidas e reverenciáveis qualidades. Mas há ainda uma sexta a servir-lhe de justo adjetivo. Aquela sobre a qual Calvino não pôde escrever a última conferência que comporia as Seis propostas: “Consistência”.

Seria esse o título da última proposta. Quanto às obras de que trataria, sabe-se apenas que faria referência a Bartleby, o escrivão, de Herman Melville. E esse é o segundo motivo pelo qual mais uma outra consistente ponte pode ser conectada entre Evando e Calvino. A predileção temática, o interesse por questões literárias fundadoras.

Em um dos contos de Cantos profanos, “Altamente confidencial”, Gabriel Arcanjo, protagonista e narrador, é um funcionário da ECT. Em dado momento do excêntrico depoimento que estranhamente é obrigado a redigir, o personagem se refere ao que denomina de “Escritório das Cartas Mortas”, ao qual, não revelarei como, seu trabalho está relacionado. Aqui, Evando e Melville cumprimentam-se, uma bela homenagem é feita, e um dos personagens mais enigmáticos da literatura ocidental é revivido e atualizado.

Na novela do escritor norte-americano, antes de ir trabalhar como copista no escritório de advocacia em que o conhecemos, Bartleby havia sido funcionário subalterno no “Departamento das Cartas Mortas”, uma repartição dos serviços postais norte-americanos, onde seu trabalho era o de manusear essas cartas e separá-las para serem lançadas às chamas.

O conto de Evando é absolutamente autônomo, a leitura dele, e muito menos sua escrita, em nada dependem da narrativa que o autor de Moby Dick escreveu, ou de que a tenhamos lido para que seja amplamente fruído. Ocorre, no entanto, que Evando faz literatura de qualidade, ou seja, “aquela que tem em si mesma vasto conhecimento do universo literário”, retomando, enfaticamente, e para finalizar, sua definição. Literatura como fonte de prazer estético, tanto mais potente quanto mais rica desse conhecimento, resultante do mais profundo diálogo entre obras e autores de inúmeras tradições incorporados ao seu cerne.

Três perguntas para Evando Nascimento, por W. B. Lemos

1. Em sua ficção, narrativas fundadoras são reescritas e atualizadas. Isso ocorre, por exemplo, em “Babel revisitada”, um dos contos de Cantos profanos, seu último livro, e em “Edens”, que integra seu livro anterior, Cantos do mundo. Qual a relevância do arcaico, do arquetípico, ou seja, de componentes primordiais em sua poética?

Penso que o que hoje chamamos de mito ou de mitologia era entendido nas culturas originárias como religião. Os gregos antigos acreditavam realmente que Zeus e Dioniso existiam, bem como os hebreus acreditavam em tudo o que é narrado no antigo Testamento. Nossas religiões atuais manterão seu prestígio enquanto houver judeus, cristãos, muçulmanos, budistas, espíritas etc. que creiam em seus ídolos. Mais tarde, quando a fé nessas religiões se extinguir, passarão todas ao status de mito. Nascido num território anteriormente colonizado por uma nação europeia como a portuguesa, falando o idioma deles, direta ou indiretamente recebi uma cultura religiosa e mítica como parte do legado colonial. Também recebi, pelas mais diversas vias, elementos do fabulário autóctone, indígena, como os mitos de Tupã, Jaci e Coaraci, entre outros. Finalmente, por minhas origens baianas, tive algum contato com o imaginário africano, que migrou junto com os escravos. Tive acesso a outras fontes míticas e religiosas por meio dos livros, como as histórias árabes das Mil e uma noites, que conheci em adaptações quando criança e integralmente mais tarde numa bem cuidada tradução francesa. Do mesmo modo, tenho algumas noções de mitos do antigo Egito, da China e do Japão. Não sou especialista em nenhuma dessas culturas mítico-religiosas, mas todas me fascinam por algum motivo e, se tivesse tempo, certamente me dedicaria a pesquisá-las a fundo. Como escritor, me sinto herdeiro dessas culturas, mesmo que etnicamente não seja verdade na maior parte dos casos. A imaginação desconhece fronteiras, e tenho enorme prazer em brincar com a fantasia de outros povos. Como toda brincadeira, isso tem algo de muito irresponsável, de jocoso mesmo – esse adjetivo vem do jocus latino, que significa graça, gracejo, galhofa, divertimento, brincadeira, resultando também em jogo no português. Ao lado desse aspecto lúdico, penso que há também algo de muito sério. O problema é que essas mitologias escondem inúmeros preconceitos sexistas, étnicos e morais. Muitas, talvez a maioria, se originam de sociedades profundamente patriarcais. Como habitante do século XXI, não posso reproduzir os valores desses mitos ao pé da letra. Assim, por meio de uma brincadeira muito séria, procuro inverter ou deslocar aqui e ali alguns dos valores arcaicos desses ícones culturais em minha poética, para utilizar seu termo. Creio que é mais ou menos isso o que acontece quando “brinco” com Babel, o Gêneses, Édipo e Coaraci em algumas de minhas histórias, que até por isso nunca são inteiramente minhas…

2. No conto “Noturno (Pequena fantasia musical)”, de Cantos profanos, um narrador humano, em uma experiência de espelhamento, ao observar hipnotizado uma não nomeada, mas identificável, ave noturna, alerta a si mesmo quanto ao perigo de se transformar naquilo com que simpatiza. Em Cantos do mundo, um aquário, como que animado por uma divindade, reflete sobre sua condição existencial e mesmo sobre os aprisionantes destinos humanos. Você poderia comentar acerca das relações de sua escrita com radicais processos de despersonalização, personificação e o diversificado uso de máscaras?

Essa é uma questão extremamente complexa que não sei como explicar bem, mas sinto que ela atravessa toda minha ficção, sobretudo a que estou fazendo agora. Tenho o sentimento de que sou profundamente mimético. Toda vez que me deparo com algo de bom e belo, seja produto da natureza ou artefato humano, sinto de imediato uma grande inveja, um desejo de ter aquilo para mim. Essa compulsão é tematizada literalmente no retrato desnatural, no poema “da imitação (elogio da inveja)”. Acho a inveja uma grande qualidade quando bem aplicada, sobretudo para fins inventivos. Como as crianças, diante do que é bom e gostoso, eu digo logo “eu também quero!”. Isso faz com que sinta necessidade de imitar ou antes “emular” (para utilizar um termo antigo e ao mesmo tempo atual) aquilo com que simpatizo ou então por que sinto forte estranhamento. Pode ser um bicho, como essa ave que você cita, uma coisa, como o aquário, alguém muito diferente de mim, como o Diabo, ou até mesmo um estado, uma situação, como é o caso do paciente que não morre porque faleceram em seu lugar, no conto “Estação terminal”. De modo que tenho a impressão, a ser confirmada ou não por meus leitores, que estou o tempo todo fazendo pequenos experimentos, me aproximando furtivamente daquilo que não sou para de certo modo “roubá-lo”. Só que, ao contrário do vampiro e do antropófago, não preciso destruir o bicho, a pessoa ou a coisa mimetizada para me parecer com ela. Procuro exercitar esse meu lado camaleão pela escrita e mais recentemente pelo desenho. De algum modo, me hibridizo, me misturo e até me transformo momentaneamente naquilo que me fascina. O risco dessa brincadeira é, ao contrário de Alice, passar em definitivo para o lado de lá do espelho, ou seja, não voltar a meu estado anterior… É arriscado, mas vale a pena. A capacidade de metamorfose é um dos talentos que alguns autores têm, não sei se muitos, e que procuro desenvolvê-la com meus parcos recursos. No fundo, tudo parte do desejo de ser ou virar outro, outra coisa, menos demasiadamente humana. Tal seria o que nos Cantos profanos chamei de estética da emulação e que funciona de vários modos, inclusive em relação à tradição literária e artística. Não sei aonde esse processo inventivo vai dar, mas é o único que no momento me interessa, por bem ou mal.

3. Retrato desnatural: (diários – 2004 a 2007), sua primeira incursão pelo poético-ficcional, é uma obra em que os mais diversos gêneros literários (poema, conto, ensaio etc.) transitam e se fundem. Além disso, é literatura dialogando com outras artes (plásticas e cinematográficas, por exemplo), e pode ser lida sob a perspectiva de certa desassossegada estética do fragmento. Como o fortuito e a incompletude são apreendidos e incorporados em seus processos de escrita?

De maneira fortuita e incompleta. Quero dizer com isso que a resposta já está embutida em sua pergunta. É justamente por não ter um projeto fixo que vou experimentando em várias direções. Ao contrário de outros escritores, os quais quando começam sabem que vão fazer um romance, um livro de contos ou de poemas, nunca sei. Vou simplesmente escrevendo fragmentos, que podem se tornar poemas, histórias curtas, pequenas crônicas, anotações de diário, epigramas etc. Muitas vezes, esses gêneros se misturam num mesmo texto. Raramente isso é calculado, tudo ocorre graças à disposição do momento, com um insight ou alguma emoção, um páthos, que me toma inesperadamente. Depois de algum tempo, que podem ser meses ou anos, vejo o que produzi e aí sim começo a elaborar um projeto de livro a partir das anotações casuais. Porém, antes mesmo que o projeto se materialize, escrevo e reescrevo diariamente aquilo que emerge. Há um trabalho insano para chegar à forma final. Nunca estou satisfeito com o resultado alcançado, e é por isso que logo após terminar um livro sinto vontade de começar outro, para preencher as lacunas do anterior. Escrever, como desenhar, dá muita insatisfação, nunca se tem certeza daquilo que foi feito. Mas há também um enorme prazer em dar o melhor de si e depois aguardar a resposta dos ilustríssimos leitores, que, eles sim, podem completar a obra, a qual não consegui realizar de todo. Creio que quem assina por último não sou eu, mas minhas leitoras e meus leitores. No final de cada volume, deixo algumas reticências virtuais para que me ajudem a completar e finalmente assinar a obra. E esse trabalho digamos coletivo é inteiramente aleatório, depende do acaso da destinação.

Curadoria de João Cezar de Castro Rocha.

W. B. Lemos é autor de Rasga-mortalha – poemas dos outros, sua estreia em livro. Antes, publicou o primeiro fragmento de “Memento d’Ângelo”, romance inacabado, na edição número 17 da revista de poesia “Inimigo Rumor” (7Letras/Cosac Naify). É mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e doutorando em Literatura Comparada na mesma universidade.

Revista Pessoa / Seção Literatura Brasileira Hoje

http://www.revistapessoa.com/2015/06/contracanto-ou-ode-paralela/#

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Comentário de Sérgio Sant’Anna, em entrevista no site da Companhia das Letras

 

Entrevista de André Sant’Anna com Sérgio Sant’Anna

22 março 2013, 3:43 pm

http://www.blogdacompanhia.com.br/2013/03/entrevista-com-sergio-sant%E2%80%99anna/
andré sant'anna, sérgio sant'anna

Sérgio Sant' Anna

Após ter respondido as questões enviadas por Bernardo Carvalho, perguntamos a André Sant’Anna quem ele gostaria de entrevistar. A resposta veio rápido: “meu pai, tenho mesmo umas perguntas pra fazer pra ele”.
[...]

AS: Dos livros que leu, quais foram os mais importantes em sua vida? E os que mais influenciaram a sua literatura?

SS: Li muitos livros e não me sinto em condições de responder a essas perguntas. Mas leituras recentíssimas foram importantíssimas em minha vida: César Aira e Evando Nascimento. Isso na prosa, pois na poesia a obra dos concretistas me marcou, incluindo aí o neoconcreto Affonso Ávila. O que mais influenciou minha literatura, para não dizer minha própria fruição artística, não foi um livro mas um “retard en verre”: “La marié mise a nu par ses célibataires même.”
[...]

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